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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Trowback Review | " A Herança Bolena", de Philippa Gregory | Planeta





Crítica por Isabel de Almeida | Jornalista, Crítica Literária e Blogger:


  A Herança Bolena, de Philippa Gregory, é um soberbo romance histórico tendo como pano de fundo a vivência no clima de intriga, sensualidade, traição e intricados jogos de poder e política bem presentes na corte de Henrique VIII de Inglaterra, em plena época Tudor.

   Este romance surte perante os olhos do leitor escrito numa perspectiva assumidamente feminina e intimista, e no decurso da leitura vamos assistindo à construção da teia narrativa pela lente de três protagonistas femininas, que assumem também o papel de narradoras participantes.

   Joana Bolena, Viscondessa Rochford, é uma mulher determinada, inteligente e astuta, mas que transporta no seu íntimo o peso de ter desempenhado um papel de relevo na condenação à morte do marido - Jorge Bolena - e da cunhada - Ana Bolena - ambos eliminados por decisão do Rei Henrique VIII. Joana é uma personagem ambígua, permanentemente dividida entre aquilo que sente seria uma conduta adequada e correcta em termos morais e humanos, e as condições que, por vezes, se vê forçada a aceitar em prol da sua própria sobrevivência, ainda que tal implique trair os que estima e ama. Numa sociedade onde os homens de poder tudo controlam e onde as mulheres se vêem forçadas  pelo contexto envolvente a trair família, amigos e aqueles a quem deveriam servir lealmente, Joana acaba por se revelar um peão de peso no xadrez sabia e perversamente planeado pelo seu poderoso tio - Tomás Howard - Duque de Norfolk.

   O Duque de Norfolk assume-se como um dos vilões da trama, é um homem sem escrúpulos, habituado a usar as mulheres da sua família como meros instrumentos para atingir os seus fins de ascensão social e política, sendo próximo do instável e perturbado Henrique VIII.

   Outra protagonista feminina é Catarina Howard, de apenas 14 anos, sobrinha do poderoso Duque de Norfolk, é por este encaminhada para a corte, onde deverá servir como Aia a rainha Ana de Clèves, sendo mais tarde orientada para seduzir o velho rei e tornar-se rainha. Catarina é uma jovem imatura e ambiciosa, mas não muito inteligente. É fútil, licenciosa e vaidosa, tendo mantido relações amorosas ilícitas em casa de sua avó - a Duquesa de Norfolk, a qual não deu à neta uma educação cuidada. Sonha em ascender socialmente e vai sempre avaliando o seu aspecto físico e  os bens que vai adquirindo, nomeadamente, vestidos novos ou jóias. Irá atrair as atenções do Rei Henrique VIII, que fica fascinado com a sua beleza e graciosidade, mas surge uma forte atracção entre Catarina e Thomas Culpepper que poderá deitar a perder os planos de ascensão social da jovem.

  Ana de Cléves, filha do Duque de Cléves, é enviada para contrair matrimónio com Henrique VIII de Inglaterra, de modo a reforçar uma aliança política inicialmente vista como vantajosa para ambas as partes, porém, o casamento revela difícil de consumar, e acabará por chegar a um fim antecipado, sendo-lhe conferido o estatuto de irmã do Rei. Ana é uma jovem doce, bondosa e sofredora. Inicialmente, vê o casamento como uma possível libertação do jugo maldoso do irmão sobre si, mas cedo percebe que a corte Inglesa dos Tudor é um local inóspito, e onde corre risco permanente de cair em desgraça perante o Rei e ser condenada à morte. Vive momentos de puro terror, com receio pela própria vida, mas torna-se amiga leal da enteada Maria, sendo também próxima da enteada Isabel.

  Henrique VIII é um homem perturbado ao nível mental, nega estar envelhecido e ter perdido a beleza e a força da juventude. É instável nos relacionamentos amorosos, imaturo,  facilmente manipulado pelos seus homens de confiança, e capaz de actos extremos de generosidade e crueldade. Da leitura do livro, ficamos na dúvida se estamos perante um vilão, ou se não será também, de algum modo, vítima de circunstâncias que o rodeiam e de uma corte que fervilha de interesses ocultos, traição e intriga política e palaciana.

   A acção decorre entre Julho de 1539 e Janeiro de 1547, no século XVI e denota ter por base uma detalhada e rigorosa pesquisa histórica que muito enriquece o trabalho da autora.

  A linguagem mais e menos formal, os cenários variados, os trajes e rituais e toda a  descrição da vida na corte mostram-se feitos de uma forma que nos transmite uma imagem visual bastante rica. As personagens mostram-se muitíssimo bem construídas e acedemos facilmente ao seu mundo interno ( em termos psicológicos). 

  A nosso ver, a leitura deste romance suscita-nos também reflexões importantes acerca da condição feminina nesta época e contexto históricos. Um fascinante retrato de uma época histórica bastante conturbada.

Ficha Técnica:


Autora: Philippa Gregory

Série: Os Tudor

Editora: Planeta

Edição: Março de 2015

Páginas: 472

P.V.P.: 19,95€

Género: Romance Histórico

Classificação atribuída: 5/5 estrelas


Nota Explicativa: Os romances históricos são, assumidamente, uma das minhas paixões. Este livro que hoje aqui recordamos na rubrica Trowback Review é, ainda hoje, um dos meus romances preferidos no âmbito da ficção histórica que tem por palco a Corte de Henrique VIII, durante a chamada época Tudor, da História Britânica. Philippa Gregory é uma verdadeira expert na ficção histórica que se inspira neste período da história de Inglaterra.
Uma das minhas próximas leituras, cuja recensão crítica terei oportunidade de partilhar com os meus leitores quer aqui no blog, quer ainda junto de quem segue o meu trabalho na imprensa escrita é, precisamente, um novo romance desta série Os Tudor, encontrando-se já disponível nas livrarias nacionais a obra A Rainha Subjugada. Portanto, pareceu-nos oportuno revisitar esta autora e , em concreto, o anterior título desta maravilhosa série.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Trowback Review | "Um Toque de Perversão", de Jennifer Haymore | Planeta


Crítica por Isabel de Almeida | Jornalista, Crítica Literária e Blogger


Um toque de perversão, (com o título original - A Hint of Wicked) é um romance de época, cuja acção decorre em Inglaterra no Século XIX, na sequência da Batalha de Waterloo.

Garrett, o Duque de Calton, é dado como desaparecido na referida batalha, e durante sete anos, a Duquesa Sophie e o primo do Duque - Lorde Tristan Westcliff - envidam todos os recursos ao seu dispor para o procurarem, mas sem sucesso.

Entretanto, o destino prega uma cruel partida a este trio aristocrático, e o Duque de Calton regressa passados sete longos anos, vivo, e disposto a retomar a sua vida de volta, assim como o amor de Sophie, a qual, entretanto, reconstruira a sua vida junto de Tristan, que assumira a administração das propriedades Ducais.

Sophie vê-se então dividida entre dois amores, e surge ao longo do livro a questão sempre latente: pode Sophie amar ambos os homens? Como irá ela tomar a mais importante e dolorosa decisão de toda a sua vida? Como se explica o misterioso desaparecimento do Duque de Calton, durante longos anos e tendo sido arduamente procurado pela família que tanto o estimava? Estes são alguns dos dilemas colocados durante a narrativa.

A autora traça um retrato fiel da sociedade Inglesa do Século XIX, com o seu puritanismo por vezes exacerbado, as convenções sociais levadas ao extremo, e uma justiça que compactua com esta visão deveras limitada da moralidade vigente.

Em simultâneo, a autora soube habilmente inserir na obra um toque de sensualidade, em especial, descrevendo de forma explícita, porém elegante, os envolvimentos sexuais que as personagens vão tendo, mas onde o sexo surge envolvido num indiscutível turbilhão emocional, e por isso em nada choca o leitor este aspecto da obra.

No último terço da obra, e à medida que vamos descobrindo as respostas às várias dúvidas colocadas durante a narrativa, surge também um momento de acção, com a perseguição a um criminoso desenvolvida por algumas das personagens, o que, a nosso ver, confere à obra, um carácter de originalidade e também bastante dinamismo.

Atrevido, sem ser excessivo, com boas doses de dilemas e dúvidas que afectam as personagens, romance, paixão, amor, sexo e também aventura.

Em suma, uma leitura que recomendamos aos amantes do romance sensual de época.

Ficha Técnica:


Autora: Jennifer Haymore

Editora: Planeta

Nº de Páginas: 360

Classificação atribuída no GoodReads: 5/5 estrelas

Género: Romance de Época | Romance Sensual


Nota explicativa: Há cinco anos atrás começámos esta aventura de construir um blogue literário, por aqui têm passado muitos e maravilhosos livros, revisitámos géneros que já conhecíamos, mas também assistimos ao nascimento de novas tendências literárias, algumas delas já mais divulgadas em Países como os Estados Unidos ou o Brasil. O romance de época é uma dessas tendências que descobrimos e que viria a tornar-se um dos nossos géneros preferidos aqui no blogue.

Em cinco anos muito aprendemos, e acreditem que este maravilhoso mundo dos livros é uma aprendizagem constante. Esta nova rubrica denominada "Trowback Review" recupera críticas a obras que já lemos há mais de dois anos, autores e géneros que nos tocaram particularmente. E os textos são agora actualizados considerando, precisamente, novos conhecimentos que entretanto adquirimos (por exemplo, o que distingue um livro de época de um livro histórico).

Jennifer Haymore tem um lugar muito especial na história do blogue, pois foi a primeira autora internacional que entrevistámos, aqui fica o link para a primeira entrevista internacional do Blog Os Livros Nossos  um trabalho que queremos retomar por aqui.