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domingo, 31 de dezembro de 2017

Thriller | "Reino de Feras", de Gin Phillips | SUMA DE LETRAS



Crítica por Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista

 Reino de Feras, de Gin Phillips, é uma das apostas editoriais da Suma de Letras (Chancela do Grupo Editorial Penguin Random House) para 2018, constituindo uma nova incursão no género Thriller, uma tendência que parece estar de volta no âmbito das novidades  literárias no mercado editorial Português. 

Primeiro ponto forte da obra, apesar de acção decorrer em poucas horas, é a tensão é permanente, e sendo as personagens colocadas num cenário de elevado risco de vida e de luta pela sobrevivência após ficarem retidos inadvertidamente num jardim zoológico, espaço onde habitualmente se deslocam para alguns momentos  de lazer, o leitor fica facilmente envolvido nesta tensão, o que leva a que a leitura tenha mesmo de ser rápida, pois ficamos ansiosos para saber o desenlace final da trama e sofremos com o perigo constante que correm os nossos protagonistas. O ritmo narrativo chega a ser alucinante, o que estimula a leitura contínua, sendo o livro ideal para ler num único dia (ou noite).

   As personagens centrais desta trama, são Joan e o seu precoce e inteligente filho Lincoln, uma criança bastante perspicaz, criativa e intuitiva. 

   Joan é uma mãe cuidadosa e que mantém uma relação deveras próxima e simbiótica  com o filho, investindo bastante na relação entre ambos, e retirando enorme gratificação emocional de cada segundo que passa na companhia do filho, aderindo às suas brincadeiras e estimulando o seu imaginário e os seus conhecimentos e referências mesmo ao nível cultural, sendo evidente ao leitor que é muito em função desta relação que Lincoln é uma criança bastante precoce e dotada de um vocabulário bastante mais elaborado e alargado do que o de muitas crianças da sua idade.

   Em termos psicológicos, é muito interessante analisar esta ligação visceral entre mãe e filho, chegando a ser perceptível que estes, muitas vezes, quase se fundem, funcionando como a extensão ou complemento um do outro, ao ponto de ser insuportável para a mãe a sensação de que a sua pele deixe de estar em contacto com a pele do filho, o que poderá simbolicamente interpretado como uma relação de simbiose psicológica entre ambos, numa interpretação à luz da psicologia dinâmica (de base Freudiana) que aqui não resistimos a evocar.

   As personagens centrais são bastante densas, e fica perfeitamente caracterizado o seu espaço psicológico (forte ligação entre mãe e filho) e social (família de classe média alta). Interessante também são as recordações de Joan acerca da sua própria infância, e das figuras de referência que a povoaram, que nem sempre corresponderam ao que ela idealizava, notam-se indícios de uma relação com uma mãe pouco próxima, pouco marcante, pouco interventiva, o que poderá ser uma das explicações para a postura de Joan como mãe que quer ser perfeita e estar sempre presente. O pai de Joan surge sempre mencionado aludindo à sua qualidade de caçador, denotando-se que não haveria muitos interesses em comum para partilhar de forma construtiva com a filha ( e aqui podemos também especular acerca de ser esta uma razão adicional para Joan procurar suprir todas as necessidades de "nutrição" intelectual do filho).

   Perante uma situação limite, onde se encontra colocada em crise a própria sobrevivência, o livro suscita também, da parte do leitor, uma aturada reflexão acerca de quais os limites morais e éticos de conduta quando está em causa a diferença entre sobreviver ou morrer. Até onde pode ou deve ir uma mãe leoa-humana para proteger a sua cria? São legítimas todas as suas acções para proteger o filho? O que faria o leitor numa situação limite?

   O Vilão é, por si só, quase uma personagem tipo, alguém que sendo ainda jovem, e não tendo tido um processo de desenvolvimento estruturado, não tendo tido modelos parentais competentes, revela falhas na formação da sua identidade, e tem tanto de cruel quanto de ingénuo e influenciável, apostando na violência como forma de afirmação pessoal e acreditando, ingenuamente e contra toda a lógica racional, que achou o caminho certo para ser reconhecido pelos outros, pois apresenta uma vivência de negligência dos pais, parecem-nos reunidos indícios de ter sido vítima de bullying escolar, e não consegue ser valorizado em nenhum contexto dito normativo, dai ser perfeitamente verosímil a sua opção pela violência como alternativa a uma eterna insignificância, numa lógica retorcida que poderá até manifestar algum nível de défice cognitivo.

   Aliás, o título da obra acaba por conter em si uma metáfora, se o enquadrarmos à luz da narrativa, na medida em que as "feras" a que o título se refere não são tout court os animais do Jardim Zoológico, existem feras humanas, e quantas vezes estas são as mais temíveis e predatórias?

   Uma história forte, personagens bem construídas, uma escrita cuidada e com evidente qualidade literária, um clima de tensão permanente, muito perigo e suspense, a receita certa para começar o ano literário, se estiver preparado para emoções fortes!


Ficha Técnica do Livro:


Título: Reino de Feras (nas livrarias a 2 de Janeiro)

Autora:  Gin Phillips

Editora: Suma de Letras

ISBN: 978 989 6655 259

Nº de Páginas: 270  Páginas

PVP c/ IVA: 17,45€

Nota: O presente artigo foi publicado inincialmente no Jornal Nova Gazeta



sábado, 18 de junho de 2016

[Secção Criminal] "As Raparigas Esquecidas", de Sara Blædel [Topseller]

               Ficha Técnica:


Título: As Raparigas Esquecidas

Título Original: De Glemte Piger

Autora: Sara Blæ
del

Edição: 20 de Junho de 2016

Editora: Topseller [Grupo 20/20]

Páginas: 304

P.V.P.: 17,69€ (IVA incluído)

Classificação Atribuída no GoodReads: 4/5 estrelas

Género: Thriller Nórdico


NAS LIVRARIAS A PARTIR DE 20/06/2016

Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:


As Raparigas Esquecidas  corresponde à chegada de uma nova autora do thriller nórdico a Portugal, sendo Sara Blædel considerada a "Rainha Dinamarquesa do Crime", a verdade é que este promete conquistar muitos leitores entre os adeptos deste género literário com especificidades que já o distinguem entre outros do mesmo segmento.

O livro transporta-nos a uma região da Dinamarca, onde vamos encontrar uma equipa de investigação a braços com um denso mistério que rodeia a identidade  de uma mulher que foi encontrada morta na Floresta.

Louise Rick é a investigadora que se encontra numa fase de transição profissional, sendo a recente directora técnica de uma nova unidade de investigação cujo trabalho será avaliado de perto pelas chefias, determinando-se a sua manutenção ou possível extinção - a Agência Especial de Busca. Eik Nordstrom ser+a o parceiro de investigação de Louise, a protagonista da trama. Com uma postura pessoal algo descuidada e nada regrada, Eik irá revelar-se um profissional extremamente determinado e competente, para espanto da colega que, para iniciar o trabalho de equipa, vê-se forçada a ir buscar Eik a um estabelecimento que mais parece um antro de perdição, imerso numa nuvem de fumo e de odores etílicos.

Cruzando-se com uma investigação de violação e homicídio na Floresta perto de onde Louise residiu na sua infância e adolescência, caberá a Eik e a Louise descobrir a identidade de uma mulher que aparece morta na floresta, perto do local do primeiro crime, mas que parece ter sido vítima de acidente. Ao ser publicada a foto da desconhecida um telefonema dará as primeiras pistas para a descoberta da verdade, e muitos segredos começam a vir à tona.

A autora apresenta-nos protagonistas fortes, determinados mas encontramos em Louise Rick uma pessoa que transporta consigo o duro peso de um passado perturbador que ainda não conseguiu ultrapassar, apesar de ser dedicada ao filho adoptivo Jonas (um jovem com talento musical) e de contar com o apoio de um simpático vizinho e da melhor amiga - Camilla - jornalista em vias de contrair casamento com um milionário Norte-Americano, uma mulher impulsiva que se debate com alguma ansiedade perante a ideia de deixar de trabalhar, sendo viciada na adrenalina de um bom furo jornalístico.

Eik é também uma personagem densa, há alguma aura de mistério à sua volta (e teremos direito a algumas revelações interessantes), mas tolera na perfeição algum mau humor de Louise, mostrando-se compreensivo perante a pressão em que ambos se vêem forçados a trabalhar.

Nota-se uma química de atracção entre os parceiros de investigação, o que vem conferir um colorido adicional à trama.

Está muito bem conseguida a descrição do tratamento cruel e discriminatório que era dispensado a pessoas portadoras de deficiência ou doença mental que eram totalmente retiradas da vida em sociedade e de família e presas em instituições com contornos, no mínimo, obscuros e sinistros, este contexto é plasmado pela autora no imaginária Eliselund, isto num passado não assim tão distante, que na narrativa se situa nos anos entre os anos 80 a 90.

A violência das descrições das cenas de crime e do modus operandi do assassino, a dúvida quanto à identidade deste que baralha o leitor ao longo de todo o livro até ao desenlace final. A crueza de algumas cenas e do próprio enredo satisfaz os leitores mais exigentes quanto a este género literário.

Uma história verosímil, cruel, narrada num ritmo trepidante e que concilia a investigação criminal com os dramas pessoais de forte pendor emocional dos protagonistas tem tudo para nos agarrar, e a verdade é que... será crime não ler este livro!


Nota: o Blog Os Livros Nossos agradece à Topseller a disponibilização de exemplar de avanço para a leitura e analise crítica desta obra.