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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Renda & Saltos Altos | " A Verdade sobre Lorde Stoneville", de Sabrina Jeffries | TOPSELLER



Crítica por Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista


A Verdade sobre Lorde Stoneville, é o romance que dá a conhecer ao público Português Sabrina Jeffries, autora bestseller do New York Times que nos brinda com um excelente romance de época com chancela Topseller

A premissa inicial deste romance de época, cuja acção decorre em Inglaterra em 1825, decorre de uma analepse inicial até 1806, contextualizando um trágico acontecimento familiar que irá influenciar de forma decisiva o desenrolar da acção, bem como a evolução, em termos psicológicos, do herói - Oliver Sharpe - Marquês de Stoneville.

Libertino inveterado, evitando constantemente o compromisso, pois sente-se incapaz de ser fiel a uma mulher, Lorde Stoneville é o herdeiro do título nobiliárquico que lhe chegou através do pai, sendo Oliver o resultado de um casamento infeliz que procurou salvar da ruína certa a propriedade de Haltstead Hall, na posse do anterior Marquês, que contraiu matrimónio com a bela e rica filha de comerciantes - Prudence Plumtree - num contrato bastante usual na época, onde alguma da nobreza tradicional britânica estava arruinada, apenas tendo como moeda de troca os seus títulos, que por sua vez, eram vistos como apetecíveis bilhetes para a ascensão social desejada por tantos membros da burguesia, pessoas de origens humildes que enriqueciam em resultado do comércio a que se dedicavam.

Do casamento infeliz do anterior Marquês de Stoneville e da sua esposa Prudence, ambos já falecidos num contexto que gera constantes rumores, dúvidas e mexericos entre a alta sociedade Londrina, nasceram (além de Oliver, o mais velho e herdeiro) outros quatro filhos: Jarret (viciado em jogo), Minerva (escritora de romances góticos, considerados escandalosos à data), Gabriel (viciado em corridas) e Celia (tem uma forte apetência por tiro ao alvo, e encabeça a luta pelos direitos dos trabalhadores infantis, então alvo de dura exploração no Reino Unido). Os Cinco irmãos são conhecidos por "Os demónios de Hallstead Hall", e vivem a expensas da avó, a astuciosa e determinada Hester Plumtree, gerente da cervejaria que herdou do marido, é uma empresária próspera que decide congeminar um plano para levar os netos, todos eles indomáveis e independentes, a constituir família e a continuarem a sua dinastia familiar, fazendo-lhes um ultimato nesse sentido.

O Marquês de Stoneville vê-se, assim, encurralado num beco sem saída, quando a avó tenta manipular os cinco netos, levando-os a casar sob pena de serem despojados da sua vasta fortuna pessoal. Hester, uma mulher muito inteligente, e uma das personagens mais marcantes, de forte personalidade e muito intuitiva, mostra conhecer muito bem a sua prole de netos incorrigíveis - " Encontrara, por fim, uma forma de fazer com que todos lhe obedecessem: usar o afecto que sentiam uns pelos outros, a única constante nas suas vidas."

Oliver Sharpe, Lorde Stoneville, é um homem marcado pelo passado, esconde segredos pesados que cerceiam a sua crença na possibilidade de ser feliz, optando por evitar a vivênvia normal de uma relação amorosa potencialmente bem sucedida no futuro: " (...) Não havia nada por que valesse a pena arriscar a vida, Nem uma mulher, nem a honra e muito menos a reputação." e revelando fortes problemas de auto-estima e sentimentos de culpa que procura exorcizar criando uma "persona" que, afinal, descobrirá não corresponder ao seu verdadeiro "eu".

Por acaso do destino, o Marquês, que encara negativamente a responsabilidade e o dever de decoro e reputação impostos pelo título de nobreza que possui, irá cruzar-se com Maria Butterfield, uma jovem herdeira americana, que com a ajuda do desajeitado e desengonçado primo Freddy, procura o seu noivo desaparecido, com o qual necessita de casar para assumir a titularidade da fortuna deixada por morte do pai, dono de metade de uma poderosa empresa ligada ao sector de transportes marítimos.

É deveras interessante e divertido observar a dinâmica entre um nobre Inglês, que renega o peso das suas responsabilidades, mas que intimamente se culpabiliza por não se sentir à altura do papel social que lhe coube em sorte desempenhar, e entre uma herdeira americana bastante pragmática, desassombrada e frontal, com pouco ou nenhum poder de encaixe para todas as regras e os maneirismos e aparências impostos pelo rígido e hipócrita código social da alta sociedade britânica.

Vendo-se na contingência de representar o papel de falsa noiva de Stoneville, numa tentativa de contrariar o plano da avó do Marquês, em troca recebendo ajuda para resolver a sua delicada situação pessoal, Maria será uma verdadeira lufada de ar fresco que entra nos bolorentos salões da ancestral residência familiar de Stoneville - Hallstead Hall - (e isto sucederá tanto em sentido literal como simbólico ou figurado).

O confronto cultural entre duas pessoas com educação tão díspar, a personalidade forte e a teimosia inerente ao casal protagonista, e a forte e espontânea química sexual que surge entre ambos ( e que resultará em cenas pejadas de erotismo bastante intensas e devidamente contextualizadas), serão os propulsores ideais do desenvolvimento do enredo e de uma clara evolução psicológica de ambos os protagonistas.

Uma mistura explosiva de drama, mistério, crítica social, paixão, coragem, o poder redemptor do amor, ingredientes que evoluem perante um evidente choque cultural que  levam o leitor a não querer pousar o livro antes de terminar a sua leitura, além de nos deixarem a ansiar pelos próximos romances da série, até porque no final surgem pistas para um novo entendimento de uma situação familiar que parecia já sanada, e os restantes irmãos Sharpe prometem muitas horas de puro entretenimento. Prepare-se, Sabrina Jeffries parece-nos perita em escrever estes  deliciosos guilty pleasures para adeptos do romance de época.

Ficha Técnica do Livro


Autora: Sabrina Jeffries

Edição: Fevereiro de 2018


Nº de Páginas: 352

Género: Romance de época | Inglaterra Século XIX

Classificação Atribuída: 4/5 Estrelas



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Romance Contemporâneo | "Traição", de Aleatha Roming | QUINTA ESSÊNCIA



Crítica por Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista


Traição, da autora Norte-Americana Aleatha Romig, chega a Portugal com chancela Quinta Essência sendo o romance que dá início à série "Infidelidades".

Estamos perante ficção romântica com um acentuado cariz de erotismo, e alguma linguagem bastante crua, mas a autora vai bem mais além desta breve caracterização de um romance contemporâneo cujo público alvo é, assumidamente, o feminino.

A protagonista feminina é Alexandria Charles Montague Collins, uma jovem que nasceu no seio da alta sociedade do Sul dos Estados Unidos, é a futura herdeira de uma avultada fortuna familiar e vive um conflito consigo mesma, ao sentir-se presa num meio social onde as aparências contam mais do que as essências, onde muitos segredos obscuros se escondem por entre os corredores e atrás das portas das luxuosas divisões das tradicionais mansões familiares, e onde  o tempo parece ter parado em séculos anteriores, no que diz respeito às práticas sociais, à mentalidade e, o que mais a assusta, no que tange ao papel social com uma visão deveras retrógrada que se espera de uma menina que dará continuidade a uma dinastia familiar do Sul dos Estados Unidos com ideais e códigos de conduta verdadeiramente próprios da aristocracia, mas não no em aspectos positivos.

Tendo acabado a primeira fase da sua graduação em Direito com louvor e distinção, Alexandria sonha vir a tornar-se Advogada, tendo, por mérito próprio, alcançado a oportunidade de prosseguir a sua formação académica superior em Direito na prestigiada Universidade de Stanford.

A narrativa alterna dois momentos essenciais na construção do enredo em termos temporais, ficamos a conhecer as vivências da personagem central feminina na sua mansão familiar, onde sente o peso de um mundo social antiquado com o qual não se identifica e que lhe é mesmo penoso e, alternadamente, recuamos até um passado recente, onde Alexandria passou uma semana de férias com a sua melhor amiga Chelsea.

É interessante notar que, em férias num resort de luxo, num local paradisíaco, Alexandria liberta-se da austeridade e do peso da sua herança familiar, que notamos ser também muito pesada e disfuncional perante a frieza de um padrasto - Alton - que se apresenta como um verdadeiro e inflexível vilão autocrático e paternalista, e a fragilidade e incapacidade de defender a filha que encontramos em Adelaide Montague, uma típica senhora da aristocracia Sulista que se refugia no álcool para se evadir do perverso mundo de aparências, intrigas, segredos e imposições em que se resignou a viver, e que tentará impor à filha da pior forma.

No resort, assumindo uma postura livre, moderna, e, para sua própria surpresa, deveras ousada, Alexandria irá cruzar-se com um elegante, sedutor e atraente desconhecido - Lennox, que se apresentará sob o nome de Nox - e ambos irão envolver-se num sensual jogo de sedução e conquista, vivendo um tórrido e intenso romance que se destina a ter uma duração muito curta - apenas uma semana, ou seja, o período de tempo em que ambos ficam alojados no mesmo hotel.

Um dos detalhes mais interessantes é o facto de Alexandria encontrar um alter ego para si mesma, durante as suas curtas férias, utilizando o nome de Charli, e será sob esta nova identidade, que muito simboliza a sua revolta contra as imposições e a teia de ilusão e aparência que caracteriza o meio onde foi criada, e que muito irá ainda surpreendê-la pela negativa.

A leitura deste romance constituiu uma agradável surpresa, pela densidade psicológica evidente das personagens, nem sempre presente neste género literário considerado mais comercial, pela excelente caracterização social do mundo das aparências da alta sociedade do Sul dos Estados Unidos, pela intensidade da intriga, e pelos surpreendentes twists com que a autora nos brinda no final deste primeiro romance, sendo ainda de destacar a existência de um inteligente cliffhanger que deixará as leitoras ansiosas por retomar o curso da trama nos livros que se seguirão. 

Uma leitura rápida, mas intensa, carregada de intriga, erotismo e muitos segredos revelados e a revelar. Nasceu uma nova estrela no panorama da ficção feminina contemporânea ao dispor das leitoras Portuguesas, e o seu nome é Aleatha Roming!

"Não importava que estivéssemos no século vinte e um - Não para os aristocratas. Este era e seria sempre o mundo onde as aparências eram essenciais. Os Segredos que ensombravam os corredores e as ombreiras das portas ficaram silenciados para sempre."

Ficha Técnica do Livro:

Título: Traição

Autora: Aleatha Roming

Série: Infidelidades #1

Edição: Janeiro de 2018


Páginas: 280

Género: romance feminino contemporâneo

Classificação Atribuída: 5/5 Estrelas


Crítica publicada  inicialmente no jornal Nova Gazeta


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Biografia | "Pablo Escobar, o meu pai", de Juan Pablo Escobar | Planeta



Crítica por Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária | Blogger


Nota: este texto foi publicado originalmente no jornal Nova Gazeta e no blog Livros ? Gosto


Em Pablo Escobar, o Meu Pai, decorridos mais de vinte anos sobre a morte do Capo do Cartel de Medellín, o seu filho Juan Pablo Escobar dispôs-se a narrar nesta obra biográfica que conjuga relato pessoal e investigação, muitos detalhes e acontecimentos que marcaram o percurso de vida do seu tristemente famoso pai, da Colômbia e do seu respectivo contexto político e social nos anos 80 e 90, durante os quais Pablo Escobar chegou a ser um dos homens mais ricos, poderosos e temidos do mundo devido à sua ligação ao narcotráfico e à escalada de violência associada a esta actividade criminosa.

A proximidade do narrador ao seu pai transporta o leitor para o seio de uma família que estava conotada com os negócios ilícitos de Escobar mas onde também existiam grandes e pequenos dramas, raiva e carinho, traições e lealdades, amores e ódios, e só por aqui já é expectável que fiquemos a conhecer o homem por detrás do traficante, Pablo Escobar é um poço de ambiguidades, de polos que se opõem e é percepcionada ao lermos esta obra.

O tom coloquial, as emoções que fluem da escrita e que oscilam entre carinho, medo, admiração e recriminação, amor familiar e repúdio estão naturalmente integradas neste livro, sendo assumida a subjectividade da escrita.

Pablo Escobar era um homem que, como resulta do olhar do seu filho, e como podemos deduzir de factos históricos conhecidos e de documentos reunidos nesta obra, era composto de ambiguidades. Era um homem inteligente, impulsivo, narcísico e egocêntrico, capaz de gestos nobres mas, também impiedoso para com todos os que se cruzavam no seu caminho e o contrariassem. Ironicamente, praticou actos de generosidade, ajudou os mais pobres, disponibilizou aviões para ajudar nas operações de socorro na sequência de uma erupção vulcânica e quis o impossível. Algures na sua mente criou a firme convicção firme de que era legítimo, aceitável e perfeitamente natural praticar o bem e defender causas políticas e sociais tendo como base de suporte económico os lucros do narcotráfico, e aceitando o preço da perda de vidas humanas (algumas delas inocentes).

De uma vida de opulência, com todas as excentricidades que o dinheiro pode comprar (por exemplo, um jardim zoológico com animais exóticos instalado na sua mais famosa propriedade a Fazenda Nápoles, que, curiosamente, deve o nome à nacionalidade dos pais de Al Capone, um dos seus ídolos) até chegar ao terror da incerteza permanente quanto ao local onde estaria toda a família no dia seguinte, o temer pela própria vida e pela dos seus ente queridos, todo este cenário nos desfila perante os olhos durante a leitura, sendo perceptível a tensão vivenciada pelo autor e pela família.

Podemos encontrar aqui relatos que ilustram a loucura de um homem (Pablo Escobar), mas não se fica indiferente à incoerência e corrupção bem patente em todo um sistema ao mais alto nível (político, militar, policial, segurança interna e relações externas).

No decurso da leitura parece-nos, muitas vezes, estarmos a assistir a mais uma produção televisiva ou cinematográfica sobre a família Escobar, mas, ao racionalizar, o leitor nota que, afinal, em tantos momentos e histórias surgem realidades que se revelam bem mais complexas e assustadoras do que a ficção.

O livro é também, a meu ver, um testemunho de resiliência, de sobrevivência, de reconstrução do autor e da sua família mais próxima.

Juan Pablo Escobar é um filho com uma herança muito pesada e ciente de que, após a morte do pai, o terror não só não abandonou esta família como se elevou a níveis ainda mais assustadores. O autor, a mãe - Victoria Eugenia Henao Vallejo - e a irmã Manuela conseguiram escapar a uma morte quase certa e aqui fica a ideia de que muito devem à coragem da matriarca bastante protectora, que enfrentou e negociou as suas vidas com cartéis concorrentes e com as autoridades que também levantaram obstáculos a uma nova vida que cortasse com o passado.

Também, à sua maneira, Pablo Escobar foi um pai e marido protector que demonstrou gostar da família (embora sejam famosas as suas infidelidades conjugais) e que estaria bastante consciente dos riscos que a esposa e os filhos correriam após a sua morte.

Num plano menos familiar e mais histórico e sociológico, somos confrontados com a extensa rede de ligações perigosas e obscuras que mobilizava aliados inesperados como forças de segurança Colombianas, a DEA (agência governamental Norte Americana que combate o Tráfico de Droga), a CIA (Serviços Secretos Norte Americanos) e os Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar, um grupo que incluía paramilitares, membros de cartéis rivais, forças de segurança e familiares das vítimas do Capo do Cartel de Medellín).

O autor, a mãe e a irmã perderam até a identidade (mudaram de nome oficialmente como medida de segurança) encontraram um novo pais para viver. Juan Pablo mostra-se determinado a passar às gerações presentes e futuras uma mensagem bastante útil e pertinente num mundo que atravessa uma crise de valores: a mensagem é a de que nada há de bom e positivo no tráfico e consumo de drogas e no uso de violência aos mesmos associado, sendo o seu pai um exemplo a não seguir.

Numa atitude clara de reconciliação com a sua conturbada narrativa familiar Juan Pablo Escobar (agora Juan Sebastian Marroquín Santos) é pacifista e vem estabelecendo contactos com familiares das inúmeras vítimas do pai, pedindo perdão pelo sucedido.

Um livro revelador, escrito de forma consistente e emotiva e que desperta consciências, lembrando-nos que nada é linear, nada é apenas preto ou branco.


Ficha Técnica do Livro:


Autor: Juan Pablo Escobar

Editora: Planeta

1ª Edição: Março de 2015

3ª Edição: Abril de 2017

Nº de Páginas: 416

Classificação: 5|5 Estrelas

Género: Biografia | Testemunho | Caso Real



segunda-feira, 17 de abril de 2017

Renda & Saltos Altos | "Escondida em Ti", de Lisa Renee Jones | Topseller


Crítica por Isabel de Almeida | Crítica Literária, Jornalista e Blogger


Escondida em Ti é um romance de suspense erótico que marca a estreia em Portugal de Lisa Renee Jones, uma autora bem conhecida do público Norte-Americano, com presença assídua nos tops do New York Times e USA Today.

Neste romance contemporâneo com cenário na Cidade de São Francisco, encontramos a nossa protagonista Sara McMillan, uma professora de Liceu que leva uma existência pacata, rotineira e low profile, não tendo ainda encontrado uma oportunidade para dar largas à sua paixão pelo mundo da arte. 

De repente, a jovem vê-se envolvida num denso mistério, ao cair na tentação de ler os diários eróticos de uma desconhecida - Rebecca - aos quais acede casualmente através de uma amiga - Ella.

Cada vez mais obcecada pelos relatos escaldantes, profundamente sensuais, mas com o seu quê de obscuro, perigoso e apelativo que encontra nos diários de uma desconhecida, Sara irá defrontar-se com um mundo com que sempre sonhou - o das galerias de arte - e vê-se envolvida numa estranha luta de poder travada entre dois machos-alfa extremamente ricos, poderosos, atraentes e misteriosos - o artista plástico Chris Merit e o Galerista e Leiloeiro Mark Compton (um verdadeiro tubarão no mundo dos negócios com arte e um chefe exigente, controlador e manipulador).

Sara assume o papel de narradora neste romance e revela travar um conflito interno a diversos níveis, desde logo, porque ao racionalizar assume estar obcecada pelos diários de Rebecca, e corre sérios riscos de querer viver a vida desta mulher para si desconhecida, o que poderá corresponder, psicologicamente, a um desejo de mudança, de quebrar rotinas e de transgredir regras, o que lhe permitirá quebrar o circulo vicioso em que se tornou a sua banal existência. Por outro lado, ao travar conhecimento com o sexy artista Chris Merit, com o qual sente uma inevitável empatia, nascendo entre ambos uma atracção física evidente, Sara sente que se há muito que os une, há também um mundo de distância entre ambos: "Nós somos de dois mundos diferentes, eu e este homem. O dele é de sonhos realizados, o meu é de sonhos impossíveis (...) [pág. 48].

Há em Sara toda uma carga psicológica de alguma insegurança, de fuga a algo que a perturba no curso de vida, de evitamento de algo que possa alterar aquelas que são as suas "zonas de conforto", mas a verdade é que, de modo mais ou menos consciente, há alguma ambivalência nestas emoções e mecanismos de defesa, pois há um desejo secreto e temido de ser uma outra pessoa, de assumir uma nova identidade, ou tratar-se-á antes de , afinal, viver em pleno e sem limites, aquela que é a sua verdadeira identidade que tem estado escondida, recalcada e em negação? A autora é exímia ao revelar pistas acerca destes conflitos da protagonista, deixando, todavia, aos leitores a margem para duvidar, questionar, problematizar e fazer a sua própria leitura psicológica desta protagonista. 

Sara consegue racionalizar, por vezes, questões que em si ainda não resolveu: "A perfeição das outras pessoas é uma fachada que criamos quando duvidamos de nós próprios (...) [pág. 56].

Chris é também um protagonista com bastante potencial para desenvolver enquanto personagem, mas talvez por se tratar de uma narrativa de acordo com o ponto de vista de Sara não acedemos ainda, tanto quanto gostaríamos, ao seu verdadeiro eu, mas são-nos disponibilizados bons indícios acerca da sua personalidade, e fica uma certeza, Chris construiu uma imagem pública, uma persona, que pretende proteger a sua privacidade mesmo considerando-se o facto de ser uma figura pública e um artista plástico talentoso e com méritos reconhecidos, que usa a arte para sublimar as suas emoções.

Já Mark Compton surge como o vilão sexy da trama, percebemos que tem muito a esconder, que está habituado a lutas pelo poder e que, normalmente, até poderá ganhá-las, excepto se encontrar um adversário à sua altura, e Chris bem pode ser esse adversário. Estamos sempre à espera de descobrir algo mais sobre o misterioso Mark e é bem certo que este pode surpreender-nos.

O estilo narrativo da autora é muito cuidado, a linguagem é bastante emotiva, reveladora da densidade psicológica de que dotou as suas personagens (com especial destaque para Sara) e a obra doseia na medida certa mistério, conflito interno, sensualidade e emotividade. As descrições com conteúdo sexual explícito que surgem na obra (ora inseridas no âmbito das transcrições dos diários de Rebecca, ora a ocorrer em tempo real no decurso da narrativa) são bastante sensuais e detalhadas, sem todavia serem chocantes, em especial, para os adeptos de literatura erótica contemporânea.

Mas a grande surpresa deste livro é a qualidade verdadeiramente literária e a mestria que a autora revela na sua escrita. O livro está de tal forma bem escrito que as habituais vozes críticas da literatura dita comercial não vão conseguir apontar alguns dos lugares comuns que muitas vezes são atribuídos a este género ainda tão "olhado de lado" em alguns meios culturais nacionais.

É possível encontrar uma escrita de elevadíssima qualidade literária num romance erótico contemporâneo? É sim, se tem dúvidas leia este livro e deixe-se levar sem pudores na sua leitura. Encontramos aqui muito mais do que puro erotismo neste romance erótico. Entretenimento, emoção e reflexão garantidos.


"Arranjamos um lugar onde guardar coisas e lidar com elas, caso contrário damos cabo de nós.(...)" [Pág. 207]

Ficha Técnica:

Título: Escondida em Ti

Autora: Lisa Renee Jones

Editora: Topseller Grupo 20|20

Edição: Abril de 2017

Nº de Páginas: 320

Classificação: 5|5 estrelas

Género: Romance Contemporâneo | Erótico





terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Crítica Contemporânea | " O Carrinho de linha azul", de Anne Tyler | Editorial Presença


Crítica por Isabel de Almeida publicada originalmente em  Jornal Nova Gazeta:


O Carrinho de Linha Azul, de Anne Tyler, é um romance contemporâneo de cariz assumidamente literário, com uma prosa rica em detalhes descritivos em estilo intimista e levando os leitores a espreitar a narrativa familiar de uma família Norte Americana da Classe Média - os Whitshank.

Abby e Red Whitshank assumem o protagonismo da trama, enquanto Patriarcas do núcleo familiar composto por quatro filhos: Denny, Amanda, Jeannie e Stem, iniciando-se a narração nos anos 90.

Assumindo as rédeas da gestão das dinâmicas familiares e desejando ter uma família perfeita, Abby cria uma imagem mental idealizada da sua prole, tentando, por exemplo, desculpabilizar a ligação distante e ocasional do filho Denny à família. 

Denny  é, sem dúvida, a personagem mais marcante da história já que mantém com os pais e irmãos uma relação ostensivamente disfuncional, revelando-nos falhas na construção da sua identidade em termos psicológicos (nomeadamente, assumindo perante os pais a sua homossexualidade, mas tentando depois ignorar este aspecto, empenhando-se em relações afectivas de curta duração com diversas mulheres) e também deixando aos leitores pistas importantes quanto aos frágeis vínculos afectivos perante os familiares, com os quais nunca chega a identificar-se.

Vamos também acedendo a diversos episódios de anteriores gerações familiares, com recurso a analepses narrativas, técnica  esta que nos demonstra a enorme capacidade criativa de Anne Tyler e a sua mestria. Achámos bastante interessante a perspectiva do narrador não participante que, por vezes, se dirige directamente ao leitor, peculiaridade que mais prende e envolve o leitor no fio que vai sendo desenrolado deste "Carrinho de linha azul" [O título permitiu uma deliciosa tradução literal, nem sempre possível em Português].

O Carrinho de linha azul revela ser uma metáfora perfeita do curso de vida de toda uma família, ou de cada um dos seus membros individualmente considerados, sendo que o fio poderá apresentar mais ou menos nós, consoante os desafios e problemas que possam aparecer na vivência do dia a dia.

Emotivo, engenhoso, envolvente e muitíssimo bem escrito. Uma lufada de ar fresco neste início de ano.

Ficha Técnica:

Título: O Carrinho de linha azul


Autor: Anne Tyler


Edição: Janeiro de 2017


Editora: Editorial Presença


Páginas: 376

Classificação atribuída no GoodReads/Blogue Os Livros Nossos: 4/5


Género: Romance Contemporâneo




quarta-feira, 16 de março de 2016

[Entrevista - Internacional] Entrevista a Daniel Sánchez Pardos – autor do Thriller histórico “O Misterioso Senhor G” [Planeta]

No passado dia 2 de Fevereiro de 2016, tivemos a oportunidade de entrevistar o escritor Catalão Daniel Sánchez Pardos, o qual se deslocou a Portugal para participar em diversas iniciativas do Festival Literário “Correntes d´Escritas”, na Póvoa de Varzim, tendo decorrido também em Lisboa, no Instituto Cervantes, um encontro de autores onde Daniel participou, ainda no âmbito do referido evento literário que tem sede na terra Natal de Eça de Queiróz.

Daniel Sánchez Pardos é conhecido do público Português adepto de romances históricos, encontrando-se a sua obra “O Misterioso Senhor G” traduzida para Português e editada pela Planeta. A obra pode ser descrita como um thriller de fundo histórico e conta com a particularidade de, entre as personagens às quais o autor deu vida na Barcelona do Século XIX se encontrar Antonio Gaudi, o celebre e misterioso arquitecto Catalão que é mundialmente conhecido pela sua obra com um estilo próprio e inimitável.

A convite da Planeta, entrevistámos o simpático autor, que connosco partilhou aspectos da sua carreira, da sua obra e do processo criativo, tendo também comentado a sua participação no Festival Literário “Correntes d`Escritas”:

Os Livros Nossos/Diário do Distrito/Nova Gazeta: Considerando o teu início de carreira com o Prémio “Tormenta” em Espanha, qual consideras haver sido a sua evolução desde então até chegarmos a este livro em concreto [O Misterioso Senhor G]?

Daniel Sánchez Pardos: Foi uma evolução muito rápida, em poucos anos. Eu escrevo há muitos anos, primeiro escrevia contos. Publicava contos em revistas há alguns anos e comecei a publicar romances em 2010, há apenas seis anos. Mas sim, nos últimos anos, sobretudo, consegui com O Misterioso Senhor G publicar no estrangeiro e foi o grande passo. Há dois ou três anos nem sequer poderia ter imaginado estar agora em Portugal a falar deste livro, ou tê-lo publicado noutros países. Foi uma grande mudança com a qual, há alguns anos, nem sequer teria sonhado.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/Nova Gazeta: Qual foi a tua principal motivação para passar dos contos para uma obra de ficção mais alargada?

Daniel Sánchez Pardos: Sinto-me sempre mais confortável com o romance do que com o conto: Imagino que o meu tipo de imaginação, por algum motivo, é mais apropriada para as histórias de ficção mais extensas, para os desenvolvimentos mais afinados. Interessam-me as personagens, que nos romances têm mais a desenvolver, assim como quando escrevia contos tentava escrever romances, o que só consegui quando atingi uma certa idade, é mais difícil conseguir algo que mereça a pena ler. Tendo começado a escrever romances, sinto que é uma zona em que me sinto mais confortável.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/Nova Gazeta: Será para dar continuidade?

Daniel Sánchez Pardos: Espero escrever mais livros, que a imaginação não se esgote e que a vontade de trabalhar e de escrever se mantenham. Escrever é um dos meus maiores prazeres, publicar ou não, não me importa, o que é importante para mim é escrever.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: E Barcelona, acredito que tenha sido uma inspiração especial?

Daniel Sánchez Pardos: Foi uma inspiração especial, mas este é o primeiro livro que escrevo sobre Barcelona. Toda a minha vida vivi ali, mas os meus livros anteriores nunca estavam localizados porque sempre senti que precisava de um pouco de distância em relação ao que escrevia para que a imaginação pudesse voar mais livre. Escrevi sobre Barcelona, mas existe uma distância temporal. Este livro é sobre a Barcelona do Século XIX, uma cidade que, por um lado é a minha, por outro é diferente daquela que hoje podemos conhecer quando passeamos pela cidade, isto ajudou-me a redescobrir a minha cidade, podendo também ter a liberdade de a imaginar.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: Inspiraste-te directamente na obra visível de Gaudi na Cidade?

Daniel Sánchez Pardos: Sim sim. Gaudi, para todos os que crescemos em Barcelona é uma presença constante nas nossas vidas, crescemos entre os seus edifícios, entre as suas obras. E ademais, Gaudi é um personagem que me atrai muito como pessoa, é um homem muito misterioso, pouco de sabe sobre ele, tinha uma vida muito íntima, não gostava da vida pública, era muito reservado, muito fixado na sua obra. Tinha um sentimento artístico quase religioso, vivia quase completamente para a sua obra, e isso fazia dele um personagem muito interessante, e isto para um novelista é muito interessante porque deixa muito espaço para a imaginação, podemos trabalhar com ele como se fosse uma personagem de ficção, mas com a vantagem de que foi uma pessoa real e que as suas obras existem e podes vê-las quando passeias por Barcelona.

Os Livros Nossos/Diário do Distrito/Nova Gazeta: Dirias que há uma mística de Gaudi?

Daniel Sánchez Pardos: Sim, sem dúvida, Gaudi era um místico em si, e à volta de ele também se criou toda uma série de lendas, de mitos, relacionados precisamente com a própria estranheza da sua obra. A sua obra é tão diferente, tão estranha que parece que, para a explicarmos precisamos de algo surreal. Há lendas sobre um Gaudi esotérico, sobre um Gaudi inserido em correntes de pensamento alternativas. As suas obras são tão estranhas que podemos imaginar que quando as criava era um homem com uma mente alterada, pelas formas sinuosas que tinham as suas obras, estas imagens oníricas, tudo isto construiu uma mística que o torna mais um personagem de ficção do que da realidade.

Os Livros Nossos/Diário do Distrito/ Nova Gazeta: Fazia um exercício de transcendência ou algo assim?

Daniel Sánchez Pardos: Sim sim, sem dúvida, sem dúvida. 

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: Como tem sido a aceitação da obra à volta do mundo? Em 2014, na Feira do Livro de Frankfurt os direitos deste livro em concreto foram expandidos para diversos países, incluindo Portugal, que reacções tens dos leitores destes países?

Daniel Sánchez Pardos: Boas, muito boas. Em Espanha saiu o livro, também já foi publicado em itália, aqui em Portugal, na Dinamarca e na América Latina. Claro que o autor nem sempre recebe muita informação sobre o que vai acontecendo, mas vais acompanhando pela internet, e a reacção é boa.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: E a experiência da participação no Festival Correntes d´Escritas? Aqui em Portugal estiveste na Póvoa de Varzim, como foi para ti esta experiência?

Daniel Sánchez Pardoss: Foi maravilhoso. Já tinha estado noutros festivais em Espanha, mas era mais breves, de um dia, falavas sobre o teu livro e acerca do tema que te era proposto, demorava poucas horas e voltavas a casa. Aqui foram cinco dias inteiros participando numa localidade que estava focada no festival, tendo contacto directo com vários escritores, que na maioria não conhecia, Portugueses, Latino Americanos, Brasileiros, alguns Espanhóis e foi uma sensação maravilhosa ver uma localidade tão envolvida com a actividade literária, creio que podem estar muito orgulhosos aqui em Portugal.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: Gostaste da experiência, repeti-la-ias?

Daniel Sánchez Pardos: Sim, repeti-la-ia.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: Que palavras dirias aos leitores Portugueses que queiram ler este livro? Como resumirias o livro em duas ou três palavras, ou numa frase que melhor o pudesse caracterizar?

Daniel Sánchez Pardos: É uma intriga histórica, baseada num personagem real, mas que é tratado como um personagem parcialmente de ficção pelo facto de se tratar de uma época da vida de Gaudi que é pouco conhecida. O objectivo do livro é tentar recriar um momento concreto, que é a Barcelona do Século XIX, recriar uma personalidade tão fascinante como Gaudi, e ao mesmo tempo dar ao leitor um argumento com parte de mistério que se pode sentir até à última página.

Os Livros Nossos/ Diário do Distrito/ Nova Gazeta: Pensas que alguns dos leitores irá despertar a curiosidade de visitar Barcelona?

Daniel Sánchez Pardos: Esse seria o maior elogio ao livro, que lendo sobre a Barcelona do livro possam sentir-se atraídos pela Barcelona de hoje. Vale a pena ir a Barcelona por qualquer motivo, mas também por causa de Gaudi.





Trabalho realizado em colaboração com Diário do DistritoNova Gazeta

Entrevista conduzida por: Isabel de Almeida

Imagem do autor: Gentilmente cedida pela Editorial Planeta - Portugal

Foto do livroautografado: Isabel de Almeida/Blogue Os Livros Nossos



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

[Entrevista - Nacional] Cláudio Ramos em entrevista na semana em que lança oficialmente o seu novo livro “Equilíbrio” [Guerra & Paz Editores]



Texto: Isabel de Almeida 

Fotos: Pedro Varela Photografia – Cortesia Guerra & Paz Editores

Email: isabelalexandraalmeida@diariododistrito.pt

   Amanhã, 23 de Fevereiro de 2016, Cláudio Ramos lança o seu novo livro “Equilíbrio”, com chancela da Gerra & Paz Editores, o Diário do Distrito, em colaboração com os parceiros Nova Gazeta e Blog Literário Os Livros Nossos teve oportunidade de entrevistar o famoso comunicador e autor, venha connosco conhecer melhor Cláudio Ramos.

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: O que motivou o Cláudio a escrever o seu mais recente livro “Equilíbrio” ?

Cláudio Ramos: Um convite muito interessante da editora Guerra & Paz numa altura da minha vida onde achei que ele fazia muito sentido. Reúne tudo aquilo que é preciso ter, se lhe juntarmos boa vontade, para facilitar o nosso dia.

Diário do Distrito: Quais são as expectativas em termos de aceitação deste trabalho pelo público?

Cláudio Ramos: Enormes,  porque o público recebe os meus livros muito bem. Eles são feitos com verdade e isso nota-se em tudo, incluindo na altura das vendas e do agrado de quem os lê.

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Em termos de trabalho de escrita, onde se sente mais confortável? Na escrita sobre lifestyle ou na ficção?

Cláudio Ramos: Sinto-me mais confortável nos livros práticos, mas os romances são uma paixão grande que tenho e onde gosto muito de mergulhar e não me tenho saído mal. Gosto muito do que escrevo, se bem que há um mundo pela frente para melhorar. Não se podem comparar as escritas. 

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Está previsto algum regresso para breve à escrita de ficção?

Cláudio Ramos: Na minha cabeça já está a trabalhar...

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Os seguidores e fãs do Cláudio constituem um incentivo ao trabalho que desenvolve no blogue e na página do Facebook – Eu, Cláudio?

Cláudio Ramos: É um tipo de escrita muito bem-disposta, sem nenhuma presunção! Mas é claro que o facto de ser lido por mais de dez mil pessoas todos os dias me incentiva a continuar.

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Quais são os seus autores preferidos nos géneros ficção e não-ficção?

Cláudio Ramos: Não tenho nenhum de não ficção. Não sou um consumidor habitual deles. De ficção sou fascinado por José Luis Peixoto. Acho-o tão maravilhoso na escrita. Internacionalmente estou a descobrir agora Haruki Murakami um Nobel Japonês... vamos ver se me fascina. 

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Que livro ou livros tem, neste momento, na mesa-de-cabeceira?

Cláudio Ramos: Tenho “Em teu ventre” do Zé Luís Peixoto e “Sono” do Haruki Murakami.

Os Livros Nossos/ Nova Gazeta/Diário do Distrito: Que medidas gostaria de ver tomadas para levar os Portugueses a cultivar mais os hábitos de leitura?

Cláudio Ramos: Os portugueses não lêem porque não têm o costume nem a educação de o fazer. Não tem a ver com mais nada. Nem sequer com o preço dos livros, porque os há de todos os preços. A educação é a base.

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Qual a opinião do Cláudio acerca do facto de os autores estrangeiros serem, por norma, aqueles que mais vendem em Portugal?

Cláudio Ramos: Não acho exactamente isso. Acho que já há muitos autores portugueses que vendem muito em Portugal. Acho é que Portugal olha para o que é seu com olhos de distância e preconceito.

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Como sente a sua evolução pessoal como escritor, o que mudou na sua obra entre os primeiros livros e este que agora publica?

Cláudio Ramos: Mudou muita coisa, porque à medida que vamos vivendo, lendo e absorvendo mais mundo, é obrigatório mudar a narrativa e a forma de a contar aos outros. Se não fosse assim seria um idiota estanque!

Os Livros Nossos/Nova Gazeta/Diário do Distrito: Quer deixar umas palavras de incentivo aos leitores para que estes escolham ler o seu livro “Equilíbrio”?

Cláudio Ramos: Que acreditem em cada página que estão a ler. 

Obrigado ;)


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

[Entrevista - Nacional] Teresa Marta em entrevista a propósito do seu livro "Fazer do medo coragem" [Diário do Distrito/Nova Gazeta/Os Livros Nossos]

Numa iniciativa conjunta com os nossos media partners Diário do Distrito e Nova Gazeta, entrevistámos ontem, dia 02/03/2016, a autora Teresa Marta a propósito do próximo lançamento do livro “Fazer do Medo Coragem” [Com prefácio de Helena Sacadura Cabral] a decorrer no próximo dia 5 de Fevereiro na Livraria Bertrand Editora das Amoreiras , a partir das 18h30m.

A autora é Licenciada em Comunicação Social, Pós Graduada em Marketing e Serviços e Mestre em Psicoterapia Existencial. Após 21 anos como Gestora, em 2013 decidiu mudar a sua vida, desempregar-se e lançar o seu projecto “Academia da Coragem”, como Coacher certificada, desenvolvendo actividades de potenciação do desenvolvimento pessoal, através do uso de metodologias activas. Ficámos a conhecer melhor a mulher por detrás da obra, e partilhamos este conhecimento com os leitores.

Os Livros Nossos: Este livro surge como corolário lógico na sequência da sua formação académica e do projecto Academia da Coragem?

Teresa Marta: Não tem tanto a ver com a formação académica. Eu fui vossa colega, trabalhei na Rádio Pal, sou Licenciada em Comunicação Social, Pós Graduada em Marketing de Serviços e só fiz o Mestrado em Psicoterapia Existencial em 2007. O livro reflecte uma mudança da minha área de actividade, eu sempre fui gestora e trabalhei em marketing e sempre tive muita apetência por perceber o que nos mantém presos ao sofrimento, o facto de ter nascido numa família também rural. Havia uma grande taxa de suicídio,  a própria mãe da minha mãe tentou suicidar-se duas vezes. Violência doméstica, hoje fala-se muito em violência doméstica porque temos as coisas mais visíveis, mas antigamente havia muita violência doméstica  que nem sequer era falada, era vivida dentro de casa,  e aguentava-se a verdade era essa. E a Academia surgiu então quando eu tive necessidade de começar a colocar no terreno afinal o que era isso da coragem, como é que nós podemos libertar-nos do medo. O livro conta dez histórias, dez histórias de medo,  e o primeiro capítulo é a minha própria história, são os tais sessenta anos de medo,  que foram tantos quantos durou o casamento da minha avó Emília, a minha mãe morreu com 64 anos e  isso no fundo resumo a história quer da minha avó, quer da minha mãe. E a minha questão fundamental é, então porque é que nós, se temos medo, estamos oprimidas pelo medo e nunca saímos do medo, o que justifica isso? E, de facto, o meu Mestrado em Psicoterapia Existencial levou-me depois a fazer a certificação internacional em Coaching Motivacional e dos Comportamentos e em estudar em maior profundidade, onde é que o medo surge no ser humano, se o medo é inato ou se é cultural ou educacional, e fe facto, há um misto das duas coisas. Ora, se nós aprendemos a ter medo em crianças, como é que os nossos pais nos ensinam ? – Olha tem cuidado, vais para ali, olha que podem-te fazer isto; olha não subas aí que é muito alto para ti;  olha que cais e partes a cabeça. É para protegermos a cria mas somos educados a ter medo – não comes a sopa vem o homem do saco.

Os Livros Nossos: Há uma cultura do medo?

Teresa Marta: Há, no meu tempo eram os ciganos, não comia a sopa vinham os ciganos. Agora há uma nova frase que é – deixa vir o teu pai que já vais ver como é que é! – Nós no fundo proporcionamos isso, e fomos ensinados desde miúdos a ter medo, a questão é que, esse medo, que até certo ponto nos protege, em adultos, quando vamos ter nós próprios relacionamentos amorosos, a nossa família, e entramos nas empresas,  o medo condiciona-nos e nós começamos a agir não pelo que sentimos, mas por tudo aquilo que nos foram ensinando. Isso é maravilhoso, perceber como é que o ser humano adquire o medo, e como é que nós podemos livrar-nos do medo e ter uma vida mais equilibrada.

Os Livros Nossos: O medo é uma força de bloqueio?

Teresa Marta: Quando é tóxico o medo é uma força de bloqueio. Aliás, há estudos muito interessantes de um Psicólogo e Psiquiatra Americano, que é o Peter Levine, que vem referido no livro. Fez estudos fantásticos e criou uma coisa que é o Instituto do Trauma, e a maior parte da vida dele foi dedicada aos animais selvagens a tentar perceber. Há uma lebre a fugir de um coiote, nós os seres humanos copiámos isso da natureza, temos três maneiras de fugir ao medo: a primeira é não nos movermos; a segunda forma é lutar e a terceira é fugir, Então a lebre fugia do coiote mas ele andava mais depressa, então a lebre ficou quieta, reduziu o batimento cardíaco e o coiote deixou-a pensando estar morta. A lebre, ao contrário de nós, não tem memória do trauma. Nós somos os nossos maiores carrascos. O ser humano memoriza o trauma. Esse registo negativo vai lá ficando, e podemos mesmo adoecer com medo, ficamos com aquele pensamento recorrente, a seguir os pensamentos adoecidos eu não posso claramente sentir-me bem, eu acabo por adoecer o meu corpo, se estou sempre a sentir-me mal emocionalmente eu vou somatizar e há cancros nomeadamente na zona do estomago e do intestino que são somatizados são pessoas que não conseguem deixar ir. Nós interrompemos a linha da vida, em vez de vivermos o presente estamos preocupados com o  “E se”, a maioria das pessoas que encontro no Coaching tem sempre esta questão do E se, encontra-se uma solução caso a empresa vá à falência, e se eu adoeço e não posso mesmo trabalhar depois . Nós seres humanos vivemos em busca da felicidade, é a nossa busca fundamental, o que para cada um de nós significa a felicidade é outra coisa, mas se estivermos antes preocupados em ver o que isto tem de bom agora, porque mesmo a noite dá origem ao dia, a tempestade dá origem a algo bom e nós aprendemos a conviver com isso. As pessoas ficam ansiosas, ficam angustiadas começam a acreditar que não são capazes, e caem, e ai há várias formas de cair das mais leves às mais pesadas.

Os Livros Nossos: Começa já a sentir alguma sensibilização para estas temáticas ao nível organizacional?

Teresa Marta: É a minha próxima fase, como trabalhei em empresas 21 anos, estou a fazer um trabalho para perceber quais são os custos do medo nas empresas. O líder tem medo de perder o poder, de ser falado nos corredores, de não atingir os objectivos e os funcionários também têm medo, por vezes incutido pelos chefes – não estás contente com o teu salário então vai lá ver como será arranjares outro emprego – e este medo é trazido para vida privada, para a família. As empresas que vivem este clima não inovam, as pessoas tem ideias para inovar mas até têm medo de as dizer com medo de serem ridicularizados ou postos de lado, são empresas que perdem clientes porque depois quem trabalha na área comercial  quando vai visitar o cliente já não vai satisfeito, são empresas que perdem a auto-estima e perdem muito do que é o seu potencial.  Há estudos muito interessantes nos Estados Unidos e aqui ao lado em Espanha, por exemplo, Pilar Jericó tem feito estudos sobre quanto as empresas estão a perder devido ao medo nas empresas e utiliza a expressão  “gestão medo zero” o que podem os gestores fazer para diminuir o medo nas empresas e aumentar a produtividade mas não pode ser uma produtividade e um lucro cego.

Os Livros Nossos: Denotam-se sectores económicos onde esta lógica do medo esteja mais acentuada?

Teresa Marta: A banca é um deles, todos os sectores que terabalhem com objectivos económicos têm medo. No sector automóvel há menos. A banca tem medo de perder clientes e de os clientes não serem tão rentáveis, se eu deixar de pagar um empréstimo o banco não vai receber. Nos seguros a mesma coisa, quando foi a venda de uma seguradora Portuguesa, quando os funcionários viam uma pessoa engravatada acompanhada de um comité a dar a volta ao open space, pensavam logo os funcionários quem é que eles vão dispensar esta semana, quem de nós vai ser convidado a sair. Os seguros a banca, a área da restauração, no fundo são áreas que estão mais dependentes do bolso do consumidor final. Há profissões de maior risco e há profissões mais seguras, embora hoje não existam empregos para a vida. È uma questão ligada ao medo e à coragem. Nós aceitarmos a insegurança é natural. No meu caso pessoal, ao decidir despedir-me em 2013, o que me custou mais fazer foi desapegar-me. Porque é verdade que é confortável viver com um salário fixo, uma boa casa, um bom carro. Esse desapego de eu perceber que tinha de remodelar a minha vida toda, eu passei a viver com um quarto daquilo com que vivia. Eu sou mais feliz, deixei de fazer milhares de horas na empresa, milhares de quilómetros de carro, passei a ter mais tempo para o meu filho.

Os Livros Nossos: Quanto tempo levou a conseguir esse desapego?

Teresa Marta: Eu ainda estou em desapego. Eu nunca mais fiz férias, por exemplo, não tenho dinheiro neste momento para ir de férias, tinha duas casas só tenho uma, tinha um carro de oitenta mil euros agora tenho um utilitário. Estou a viver das minhas ainda poucas sessões de coaching e de uma poupança que fiz. A política não me paga nada, apenas as senhas da assembleia, eu nunca vivi nem quero viver da política. 

Os Livros Nossos: Qual foi a história mais marcante do seu livro?

Teresa Marta: A mais marcante de todas foi uma senhora que não conseguia engravidar, tinha perdido uma filha com um tumor cerebral com 17 anos, Apareceu-me na primeira sessão com um potinho e perguntou se o podia colocar em cima da mesa e eu disse que sim, e depois disse-me – é a Iris – eram as cinzas da filha de que não conseguiam separar-se, perdeu o casamento, é a história típica de quem tem tudo financeiramente mas não tem o resto, temos a tendência para associar felicidade a dinheiro, é certo que ajuda, mas não é tudo. Temos que prescindir de amigos, de relações, de tempo para nós. Nós acabamos por ter de prescindir daquilo que é a nossa missão de vida. Não preciso muito para ser feliz, mas depois temos aquela ideia de – e se eu tiver mais isto – e é a eterna insatisfação do ser humano. Uma vez tive um senhor que me disse: tenho três casas, uma mulher fantástica, três filhos maravilhosos, um Jeep e um carro topo de gama, e depois vamos para o Algarve de avião e temos lá outro carro e no entanto não sou feliz, explique-me lá o que se passa. Às vezes termos tanta coisa acabamos por não valorizar outras pequenas coisas – ter tempo para tomar um café com os amigos, para ficar sozinha.

Os Livros Nossos: E a crise trouxe medo?

Teresa Marta: Trouxe muito medo. Como poderia eu ajudar se não tivesse experiencias minhas, por exemplo, no caso da mãe que tinha perdido a filha com um tumor cerebral eu nunca a entenderia se não tivesse filhos. Eu pensei que a senhora não ia voltar mais, eu chorei o tempo todo, depois acabámos abraçadas. Na sétima sessão ela disse-me que tinha ido deitar as cinzas da filha ao Guincho, como a filha havia pedido.

Os Livros Nossos: A Teresa acabou por ser uma mais-valia para essa mãe?

Teresa Marta: No dia em que acharmos que somos os melhores, como aqueles terapeutas que dizem estar resolvidíssimos algo não está certo. Nenhum ser humano está resolvido. 

Os Livros Nossos: Ao longo deste tempo todo tem sentido que tem ajudado as pessoas?

Teresa Marta: Sim tenho sentido. A vantagem de juntarmos metodologias activas à psicoterapia. Eu não faço psicoterapia no sentido estrito da expressão e isto foi por opção, porque comecei a sentir que posso ajudar mais juntando duas coisas, a minha experiencia pessoal porque passei pelos processos, e em segundo lugar a questão do fazer,  porque nós não podemos dizer que não conseguimos até tentarmos. Claro que eu ajudo as pessoas, mas não sei até que ponto eu própria saio enriquecida. No dia em que eu achar que sou a maior mandem-me internar [risos].

Os Livros Nossos: A quem aconselharia, no imediato, o livro que escreveu?

Teresa Marta: A todas as pessoas que estejam a sofrer com perdas físicas, emocionais ou com sensação de injustiça que sintam.

Os Livros Nossos: Alguma vez esteve indecisa entre o Coaching e a Psicologia ou nem sequer foi por ai?

Teresa Marta: Eu nem fui por ai porque tenho vários amigos psicólogos, sobretudo amigas e como sou uma mulher que veio das empresas a psicologia não ia proporcionar tudo o que eu desejava. Por isso fiz formação em psicoterapia existencial. Como quero levar o coaching da coragem para as empresas falta a vertente de agir, como vamos proporcionar a mudança.

Os Livros Nossos: A nível de procura de Coaching ocorre mais a nível individual ou institucional?

Teresa Marta: Mais individual, também porque o meu marketing tem sido mais noutro sentido, eu tive de testar primeiro a metodologia ao nível individual antes de ir para as empresas, era incapaz de ir para as empresas sem saber se teria resultados, também porque fui gestora e não lido bem com o insucesso, confesso. 


Entrevista conduzida por: Isabel de Almeida e Miguel Garcia 

Foto: Miguel Garcia/Diário do Distrito/Nova Gazeta