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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Crítica Contemporânea | " Contigo para a Eternidade", de Jude Deveraux | Quinta Essência



Crítica por Maria João Covas | Guest Blogger Os Livros Nossos:



Contigo para a eternidade é o terceiro livro da Série "Noivas de Nantucket" de Jude Deveraux. Depois de termos lido a história de Alix e de Toby, eis que nos surge Hallie, uma jovem fisioterapeuta, que no momento em que se sente enganada pela ‘irmã’ resolve abandonar tudo e ir tomar posse de uma casa que lhe tinha sido deixada por um familiar desconhecido. A casa, na ilha de Nantucket, vem com um ocupante. Nela se encontra o belo James Taggert, a necessitar dos serviços de Hallie, após ter tido um acidente de esqui. 

Esta é a premissa de onde parte o livro. Obviamente que a história se complica quando percebemos que a casa é assombrada. Dois fantasmas, mulheres, divertidíssimas, e muito casamenteiras, acabam por condicionar a vida de quem lá vive, e de quem lá passa, e a nós, leitores, fazem-nos rir, sorrir e aplaudir as suas atitudes. 

O enredo é de leitura fácil, sem ser simplista, pois os problemas de James vão muito além da perna magoada, são problemas do foro psicológico e por motivos muito mais sérios do que o esqui. O livro trata do problema que vivem as pessoas com stress pós-traumático provocado pela guerra. E embora seja um romance de ficção romântica num registo leve, Jude Deveraux mostra bem como este trauma condiciona a vida das pessoas e a sua relação com os outros e dos outros para com eles. James é, pois, uma personagem forte, por vezes agressiva, mas muito consciente da sua situação, tentado sempre lidar com ela da melhor maneira.

Por sua vez, Hallie, também ela uma mulher forte e determinada, não se deixa assustar pela agressividade de James e acaba mesmo por ter uma influência positiva na sua evolução, não só física, mas também psicológica. Hallie ajuda-o a perceber que a vida é para ser vivida e que ninguém é uma ilha. No entanto, também ela tem um passado a ultrapassar e um presente a esclarecer.

Quanto às outras personagens, ditas secundárias, são na verdade fundamentais para a compreensão do universo que rodeia aquela casa. A família de James, que surge por ocasião de um casamento, e a ‘irmã’ de Hallie, Shelly, bem como o seu amigo de infância Braden, criam um ambiente bastante colorido, plausível e completam o universo das personagens principais.

Outro aspeto interessante do livro é que nos mostra que tudo tem dois pontos de vista. Ou seja, depois de termos formado uma opinião, não muito boa, confesso, sobre uma personagem, vendo a história pelos olhos de outras personagens, percebemos no final que ela própria tem uma visão de si que em nada se enquadra com a que nos foi dada, mas que é legitima. Assim, de repente, tudo o que nos parecia ilógico, a nível do comportamento, passa a fazer sentido e a ser compreendido.

O fim do livro é previsível em relação às personagens principais, embora o mesmo não se possa dizer em relação às secundárias.  A autora desvia o rumo da história e elas acabam por ter um final surpreendente, mas bastante plausível.

Um romance encantador, com uma leitura muito agradável. Uma óptima leitura de verão.


Ficha Técnica do Livro:



Autora: Jude Deveraux

Série: Noivas de Nantucket #3


Edição: Junho de 2017

Nº de Páginas: 408

Género: Romance Contemporâneo Feminino | Ficção Romântica




sábado, 25 de fevereiro de 2017

Crítica Contemporânea | "Cartas por um Sonho", de Angeles Doñate | Suma de Letras


Crítica por Liliana Marques | Guest Blogger Os Livros Nossos


Cartas por Um Sonho, é dos livros mais simples, e ao mesmo tempo mais encantadores que já li até hoje!

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a magnifica capa. E, no final, tive a certeza que a beleza da capa reflecte a magia do interior. Uma história cativante e ternurenta!!! 

Sara, a única carteira da pequena aldeia de Prevenir, em Espanha, está na iminência de perder o seu emprego, devido ao reduzido n.º de cartas recebidas e enviadas na aldeia. Desta forma, Rosa, a sua melhor amiga e vizinha, inicia uma corrente de cartas anónimas, cujo principal objectivo é aumentar o volume de correspondência na aldeia e ajudar Sara a não perder o seu emprego, e este é o mote para o desenrolar de toda a história. 

É através desta corrente solidária que nos são apresentadas todas as personagens do livro. Pessoas comuns, com histórias de vida muito distintas, que de algum forma têm algo para contar. Muitas delas só continuam esta corrente, porque sentem que a Sara o merece, mas ainda assim, todas elas acabam por perceber que escrever é terapêutico e que se sentiram muito melhor depois de transpor para o papel as suas vivências, angustias, medos, segredos, sonhos e desejos. 

Este é um livro que nos faz sonhar, que nos faz ter vontade de, também nós, iniciarmos uma corrente de escrita, tão forte, que nos leve para um lugar melhor, com Prevenir. 

Quando terminei esta leitura dei por mim a pensar há quanto tempo não enviaria eu uma carta? Há meses? Diria mesmo que há anos... Vivemos na era dos e-mails, das sms, dos chats, do emojis, mas, como Saramago disse um dia "Jamais uma lágrima manchará um email"!! Pensemos nisto, sim?

Ficha Técnica:


Autora: Angeles Doñate

Editora: Suma de Letras | Grupo Penguin Random House

Edição: 2016

Nº de Páginas: 372

Género: Romance Contemporâneo



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Crítica Contemporânea | " O Carrinho de linha azul", de Anne Tyler | Editorial Presença


Crítica por Isabel de Almeida publicada originalmente em  Jornal Nova Gazeta:


O Carrinho de Linha Azul, de Anne Tyler, é um romance contemporâneo de cariz assumidamente literário, com uma prosa rica em detalhes descritivos em estilo intimista e levando os leitores a espreitar a narrativa familiar de uma família Norte Americana da Classe Média - os Whitshank.

Abby e Red Whitshank assumem o protagonismo da trama, enquanto Patriarcas do núcleo familiar composto por quatro filhos: Denny, Amanda, Jeannie e Stem, iniciando-se a narração nos anos 90.

Assumindo as rédeas da gestão das dinâmicas familiares e desejando ter uma família perfeita, Abby cria uma imagem mental idealizada da sua prole, tentando, por exemplo, desculpabilizar a ligação distante e ocasional do filho Denny à família. 

Denny  é, sem dúvida, a personagem mais marcante da história já que mantém com os pais e irmãos uma relação ostensivamente disfuncional, revelando-nos falhas na construção da sua identidade em termos psicológicos (nomeadamente, assumindo perante os pais a sua homossexualidade, mas tentando depois ignorar este aspecto, empenhando-se em relações afectivas de curta duração com diversas mulheres) e também deixando aos leitores pistas importantes quanto aos frágeis vínculos afectivos perante os familiares, com os quais nunca chega a identificar-se.

Vamos também acedendo a diversos episódios de anteriores gerações familiares, com recurso a analepses narrativas, técnica  esta que nos demonstra a enorme capacidade criativa de Anne Tyler e a sua mestria. Achámos bastante interessante a perspectiva do narrador não participante que, por vezes, se dirige directamente ao leitor, peculiaridade que mais prende e envolve o leitor no fio que vai sendo desenrolado deste "Carrinho de linha azul" [O título permitiu uma deliciosa tradução literal, nem sempre possível em Português].

O Carrinho de linha azul revela ser uma metáfora perfeita do curso de vida de toda uma família, ou de cada um dos seus membros individualmente considerados, sendo que o fio poderá apresentar mais ou menos nós, consoante os desafios e problemas que possam aparecer na vivência do dia a dia.

Emotivo, engenhoso, envolvente e muitíssimo bem escrito. Uma lufada de ar fresco neste início de ano.

Ficha Técnica:

Título: O Carrinho de linha azul


Autor: Anne Tyler


Edição: Janeiro de 2017


Editora: Editorial Presença


Páginas: 376

Classificação atribuída no GoodReads/Blogue Os Livros Nossos: 4/5


Género: Romance Contemporâneo




sexta-feira, 29 de julho de 2016

[Crítica Contemporânea] "Pessoas Como Nós", de Stephanie Clifford [Asa]

Ficha Técnica:


Título: Pessoas como nós


Autora: Stephanie Clifford


Editora: Asa [Grupo LeYa]


Edição: Julho 2016


Páginas: 432


Género: Contemporâneo


Classificação atribuída no GoodReads: 4/5 estrelas



Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o blog Os Livros Nossos:


Pessoas como Nós, de Stephanie Clifford é o romance de estreia da autora Norte-Americana, repórter do New York Times.

Este romance levanta o véu sobre o mundo agridoce da alta sociedade de Nova Iorque, caracterizando o seu modo de vida muito peculiar, os seus interesses e ocupações. Em paralelo, assistimos à luta verdadeiramente desesperada de uma jovem que  se rende à pretensão de fazer parte deste mundo glamouroso, restrito e muito peculiar.

A anti-heroína deste romance (os leitores entenderão esta qualificação quando lerem o livro) é Evelyn Beegan, 26 anos, estudou num colégio de elite - Sheffield - e ali fez alguns contactos com colegas que, de pleno direito, integram a Elite de Nova Iorque, que chega a ser uma réplica adaptada da aristocracia Britânica, como tão bem destaca a autora. 

Oriunda de uma família da classe média alta, sendo a mãe - Barbara - uma eterna candidata a arrivista social, obsessão esta que sempre sonhou partilhar com a filha. Dale o pai de Evie é um advogado Sulista relativamente bem-sucedido numa firma local, simpático, um pouco sovina, mas presente em termos afectivos.

Ao integrar a equipa de um site que corresponde a uma rede social de elite - Pessoas Como Nós - Evie aproveita a sua rede de contactos do tempo do colégio para aceder a colunáveis que possam tornar-se utilizadores do site. Assim, com a ajuda de Preston (um amigo dos tempos do colégio) começa a pouco e pouco a frequentar eventos sociais de elite, como convidada que,em muitos casos, não chega a ser totalmente aceite mas apenas tolerada.

Ao travar conhecimento com Camilla Rutherford, a menina bonita e it girl das colunas sociais de Nova Iorque, Evie vai cair no erro de se deixar deslumbrar por um mundo ao qual julga necessário ascender, mas que não é o seu. Evie será uma das amigas de Camilla, mas o preço a pagar por tal privilégio será elevado, pois perde a noção da realidade e começa a deixar-se envolver numa espiral de fabulações sobre as suas origens, a história da sua família e o seu percurso pessoal que podem deitar a perder a sua credibilidade.

Neste percurso alucinante, de festa em festa, poderá até descobrir o amor verdadeiro, mas será que vai conseguir gerir uma relação de forma honesta ?

A ilusão em que vive levará Evie a ser ingrata para com os verdadeiros amigos de longa data - Preston e Charlotte, e a descurar uma crise familiar que requer apoio urgente, pois o pai vê-se envolvido num escândalo que poderá arruinar a sua carreira.

É certo que, em alguns momentos, Evie sente estar a pisar terreno perigoso, a afundar-se num pântano de mentiras que considera inocentes, mas poderá ser tarde demais quando se der conta de que a verdade pode vir à tona de forma extremamente cruel e destrutiva.

Um romance que oscila entre humor e drama, e que nos faz pensar na busca pela nossa identidade nem sempre facilitada, desde logo, por alguns modelos parentais, e na vacuidade e crueldade que se escondem por trás de existências que parecem retiradas de contos de fadas. Até onde fixamos limites para ascender socialmente? Valerá a pena o investimento em toda a linha ?

O livro lê-se rapidamente, é muito menos superficial do que, à partida seríamos levados a pensar, será levado ao cinema, ficamos, pois, a aguardar com expectativa a versão cinematográfica. 

Uma leitura que proporciona entretenimento e também alguma reflexão, desengane-se quem pense estar perante uma obra vulgarmente apelidada de light ! Gostámos, recomendamos e ficamos atentos a esta autora dotada de um estilo de escrita muito lúcido e realista.








quinta-feira, 23 de junho de 2016

[Crítica Contemporânea] "Enrolados", de Emma Chase [Topseller]

Ficha Técnica:


Título: Enrolados


Autora: Emma Chase


Edição: Novembro de 2014


Editora: Topseller [Grupo 20/20]


Páginas: 224


Género: Romance contemporâneo






Crítica por Vanessa Martins para o Blog Os Livros Nossos:

Sabem meninas quando há um mal-entendido entre vocês e o vosso namorado? Pois bem, é o que se passa entre o Drew e a Kate, neste novo livro [ Enrolados] que a editora [Topseller] edita em Portugal, estes dois decidem que o “felizes para sempre” não é bem “para sempre”, mas sim “por alguns momentos”.

  Na verdade, eu estava toda empolgada com o “felizes para sempre” dos protagonistas, quando a Kate decide abandonar o seu emprego de sonho para voltar à sua cidade Natal - Greenville - e porquê???

Pois … o Sr. Drew Evans decidiu “meter o pé na poça” outra vez. Kate recebe a noticia mais feliz da sua vida e está doida para a partilhar com o Drew, quando chega a casa e vê a coisa mais horrível que uma pessoa pode esperar da sua cara-metade, desesperada com o que vê pega nas suas coisas e decide regressar ao seu aconchego familiar. Será que ainda haverá um final feliz ??

A Kate é a mulher de armas, aquela que gostávamos de ser quando o nosso namorado decide magoar-nos, por sua vez, o Drew é aquele tipo de homem que não tem papas na língua e diz tudo aquilo que pensa, mesmo que magoe as pessoas, mas também tem aquele lado amável através do qual revela ser capaz de dar a vida por aqueles que ama.

Dando uma nova volta na trama, a autora mantém o espírito bem-humorado da obra, e as personalidades bem vincadas de Kate e Drew continuam a alimentar a dinâmica da narrativa. É impossível não querermos saber o fim da história.

Sim, posso dizer estou apaixonada por estes dois, mas melhor ainda, a história não acaba aqui, pois o terceiro livro vai trazer-nos duas personagens que já conhecemos muito bem, e posso dizer que uma delas sempre me despertou a atenção desde o primeiro livro.







segunda-feira, 13 de junho de 2016

[Crítica contemporânea] "Envolvidos", de Emma Chase [Topseller]

Ficha Técnica:


Título: Envolvidos


Autora: Emma Chase


Editora: Topseller [Grupo 20/20]


Edição: Julho de 2014


Páginas: 256


Género: Romance contemporâneo/erótico





Crítica por Vanessa Martins para o Blog Os Livros Nossos:

Meninas corram já para a livraria mais próxima da vossa casa, porque este livro [Envolvidos] editado em Portugal pela Topseller foi um dos melhores que já li até hoje, sendo merecido o prémio RITA 2014 para Melhor Romance Erótico, atribuído à obra pela Associação Americana de Escritores de Romance.

Quando o comecei a ler nunca mais consegui parar, é um livro bastante divertido em que um homem descreve cada “pensamento e opinião” que tem sobre as mulheres que conquista nas suas noites de sábado (aquelas noites em que eles dizem que vão sair para descomprimir depois de horas e horas de trabalho durante os 5 dias da semana) e nada melhor que ler o que o Sr. Andrew Evans pensa.

É verdade com tanta conversa esqueci-me de vos apresentar o Sr. Drew Evans (ele não gosta que o tratem por Andrew, prefere que lhe chamem Drew, que é o diminutivo do seu  primeiro nome) é um homem que venceu no ramo dos investimentos financeiros, sempre vestido com o seu melhor fato e com o seu cabelo preto puxado para trás, o que lhe dá aquele ar profissional e ao mesmo tempo perigoso. Está habituado a ter todas as mulheres aos seus pés.

Num sábado à noite na melhor discoteca de Nova Iorque - “REM” - ele conhece uma mulher morena com cabelo cumprido, que veste um vestido preto de alças que lhe dá um ar bastante sexy e com classe. A mulher “misteriosa”, como ele lhe chama, desperta-lhe o interesse de imediato, mas mal sabe que esta lhe vai dar a volta à cabeça.

A mulher misteriosa é Katherine Brooks que foi contrata para trabalhar com Drew Evans na empresa de investimentos financeiros do seu pai, é um osso duro de roer, terminou o seu MBA recentemente e está disposta a dar o seu melhor no novo emprego, é determinada e ambiciosa.

A disputa entre estes dois por um cliente torna a parceria ainda mais picante. Será que Drew vai resistir ao charme e à inteligência desta mulher ou vai ser mais uma das suas conquistas de sábado à noite???

 Sabemos só que tudo começa quando Drew está em casa com “gripe” há sete dias. Será mesmo gripe ou é mais “mal de amores” ???

Hilariante e original, o livro leva-nos ao interior de uma mente masculina, permite-nos ver a evolução de uma interacção e possível relacionamento amoroso pelos olhos de um homem nada habituado a compromissos ou a quaisquer ligações que não sejam por si controladas.

Pois é meninas, este primeiro livro da série de Emma Chase conquistou-me, e vou querer seguir atentamente esta série. 





segunda-feira, 18 de abril de 2016

[Crítica Contemporânea] "Vamos Comprar um Poeta", de Afonso Cruz [Caminho]

Ficha Técnica:


Título: Vamos Comprar um Poeta


Autor: Afonso Cruz


Editora: Caminho [Grupo Leya]


Edição: Março de 2016


Páginas: 104


Género: Juvenil/ficção contemporânea


Classificação atribuída no GoodReads: 5/5 Estrelas


[Sinopse]:

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspectos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exactidão e até os afectos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. 
A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual...
Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das acções desinteressadas.


Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:

Vamos Comprar um Poeta é um surpreendente grande pequeno livro da autoria de Afonso Cruz. Porque os livros, tal como as pessoas, não se medem pela extensão, mas pela qualidade, pela essência, pela personalidade própria, pela originalidade e pela capacidade de nos tirar da zona de conforto e de nos abanar a alma, e é precisamente isto que este pequeno grande livro faz connosco.

A premissa inicial é, desde logo, interessante, numa sociedade em tempo indeterminado, algures no futuro, a narradora participante descreve-nos uma sociedade materialista onde tudo é visto de modo quantificado ou quantificável, até mesmo as emoções, e os nomes sujeitos são meras combinações de números onde o peso das dízimas diz algo sobre a preponderância social de cada indivíduo.

Numa elegante prosa plena de ironias e toques de humor, entramos na intimidade de uma família [ a da nossa narradora] constituída pela própria, pelos pais e pelo irmão, e iremos conhecê-los quando se predispõem  a comprar um Poeta, visto que não suja e é relativamente fácil de manter em casa para entretenimento da família, sem consequências de maior na rotina de cada um [assim pensam os membros desta família].

E o Poeta chega a instala-se, ou melhor dizendo, é instalado num espaço exíguo num vão de escada e irá revolucionar a vivência economicista, quantificada e limitada deste núcleo familiar.

A sociedade imaginária narrada neste livro tem algo de assustadoramente familiar...embora esteja caricaturada e levada ao extremo, perdeu valores culturais, menospreza o conhecimento, a criatividade o peso e a relevância da imaginação, sendo impensável e mal visto socialmente desenvolver uma actividade intelectual que se afaste do campo dos números, da economia, da lógica fria do lucro e dos ilusórios prosperidade e crescimento.

Com inúmeras referências culturais, que são depois esmiuçadas em notas no final da obra, este livro tem o condão de nos fazer rir de nós próprios e do mundo que estamos a construir, sendo um belíssimo exercício contemporâneo do lema ridendo castigat mores de Gil Vicente.

A ler, a reler, a coleccionar, a recomendar e a reflectir de quando em vez! Parabéns Afonso Cruz.







segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

[Crítica Contemporânea] "Tu, eu e Todo o Tempo do Mundo", de Taylor Jenkins Reid [Editorial Presença]


Ficha Técnica:


Título: Tu, Eu e Todo o Tempo do Mundo


Autora: Taylor Jenkins Reid


Edição: Fevereiro de 2016


Colecção: Grandes Narrativas [nº 626]


Editora: Editorial Presença


Páginas: 304


Classificação atribuída no GR: 4/5 estrelas


Saiba mais detalhes sobre a obra AQUI


Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o blogue Os Livros Nossos:


Tu, Eu e Todo o Tempo do Mundo, de Taylor Jenkins Reid é o romance de estreia desta autora Norte-Americana, que nos surpreende, desde logo, pela riqueza, rigor e forma desafrontada como aborda um tema bastante complexo e pertinente como o luto pela perda da pessoa amada.

Elsie Porter é uma jovem  e independente bibliotecária que mantém com os pais - médicos viciados no trabalho - uma relação muito pouco próxima e carente de afectividade. A pessoa com quem pode sempre contar, nos bons e maus momentos, é a sua melhor amiga Ana.

Elsie levava uma vida simples e algo rotineira, até que, acidentalmente, conheceu Ben, o amor da sua vida, e, muito rapidamente, o que começou com uma atracção física transformou-se numa relação estável, intensa mas que foi brutalmente interrompida pela morte acidental de Ben.

A protagonista ilustra de modo muito realista e terra a terra uma jovem esposa enlutada, apresentando as várias fases do luto: choque, negação e uma lenta aceitação.

A sensação de que a vida deixa de ter sentido após a morte do marido, o isolamento social, o descurar a imagem pessoal, e a culpabilização pela perda sofrida também são evidentes no percurso de Elsie.

Curiosa é também a evolução do relacionamento entre Elsie e Susan, a sogra que apenas virá a conhecer aquando do falecimento de Ben. Inicialmente,  a desconfiança e alguma hostilidade marcam o contacto entre ambas, mas os seus caminhos não são tão opostos como, à partida, poderia parecer, pois também Susan perdeu o marido e encontra-se ainda a tentar lidar com essa situação, quando é apanhada de surpresa pela morte do filho, e por um aspecto da vida deste que desconhecia.

A narrativa vai alternando entre o passado e o presente de Elsie, e vamos assistindo à sua caminhada emocional ao longo do processo de luto, e à sua evolução psicológica neste campo.

Terno, intenso, realista e emotivo, é um romance que nos faz oscilar entre a sensação de ternura e de empatia em relação à tristeza da protagonista e da sogra, e que revela maturidade  e sensibilidade por parte da jovem autora.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

[Crítica contemporânea] "Diz-me quem sou", de Sophie Kinsella [Quinta Essência]


Ficha Técnica:

Título: Diz-me quem sou


Autora: Sophie Kinsella


Edição: Janeiro de 2016


Editora: Quinta Essência


Páginas: 392


Género: Romance Contemporâneo/Ficção feminina


Classificação atribuída no GR: 4/5



Sinopse:

E se acordasses e a tua vida fosse perfeita?

E se um dia abrir os olhos e, de repente, a sua vida for perfeita? Por incrível que pareça, esse sonho tornou-se realmente realidade para Lexi Smart. Tinha um emprego mal pago, dentes tortos e uma vida amorosa horrível quando, uma manhã, acorda numa cama de hospital e descobre que a sua esplêndida dentadura deslumbra como um anúncio de pasta de dentes, as suas unhas têm uma excelente manicura, e as suas roupas e acessórios são os de uma mulher muito rica. E como se isso não bastasse, está casada… com um desconhecido!!! Superada a grande surpresa, Lexi pretende aproveitar o seu novo eu, com o qual poderá comprovar em primeira mão as vantagens e desvantagens que podem resultar de uma inesperada vida perfeita.

Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:

Diz-me quem sou, de Sophie Kinsella, a aclamada autora de Louca por Compras, é um romance surpreendente porque, escrito no registo divertido que é cunho pessoal de estilo da autora, e apresentando situações hilariantes, vai também chamando a nossa atenção para algumas duras verdades dos tempos modernos e de certos estilos de vida.

A acção decorre em Londres, e a nossa heróina - Lexi Smart - em 2004 uma rapariga simples, da classe média trabalhadora, leva uma existência banal, partilhando as agruras da vida com as amigas : Fi, Debs e Carolyn, percorrendo a noite da cidade em busca de alguma distracção, e lamentando a relação amorosa bastante insípida e disfuncional com Looser Dave, o namorado do momento.

Sucede que, após sofrer um aparatoso acidente de automóvel, Lexi acorda num hospital, em 2007, sofrendo de amnésia que apagou a sua vida os últimos três anos, mas para sua surpresa, encontra em si mesma uma nova mulher: chefe do departamento, uma feroz executiva bem sucedida, casada com um sexy milionário - Eric - com uma mãe em negação após a morte do pai, e uma irmã que é agora uma adolescente bastante problemática - Amy - que irá requerer a atenção de Lexi.

A situação da nossa protagonista tem tanto de divertida quanto de dramática, pois todos os acontecimentos  e as pessoas que conheceu nos últimos três anos, são desconhecidos, e neste grupo inclui-se o marido - o atraente, rico e atencioso Eric, ou a melhor amiga do momento, a fútil mas hilariante Rosalie.

Dividida entre as memórias que ainda tem de há três anos antes, quanto a vida parecia muito mais complicada, Lexi vai confrontar-se com um novo estilo de vida que não reconhece como sendo seu, mais parecendo que viveu a vida de outra pessoa.

Ser-lhe-á difícil enfrentar um ambiente hostil no emprego, onde no competitivo  meio empresarial, uma directora de departamento que perdeu a memória poderá ver a vida a complicar-se, encontrando forças de bloqueio tanto entre os superiores quanto entre os seus subordinados [Entre os quais estão as suas melhores amigas de 2004], 

Mas será a nova vida de Lexi assim tão perfeita? Conseguirá ela adaptar-se e reencontrar a sua verdadeira identidade, afinal, Lexi questionar-se-á acerca de quem é ela afinal, e nem todos parecem dispostos a ajudá-la responder a esta questão, nem sequer a própria mãe, o marido ou as amigas.

Com um ritmo narrativo bastante rápido, um clima de permanente suspense e uma mulher que procura o seu "eu" perdido, várias peripécias irão acontecer a Lexi, causando no leitor diversos sorrisos e gargalhadas, mas também alguma reflexão sobre aspectos da vida moderna, como apartamentos inteligentes, animais de estimação virtuais e a fria ferocidade do mundo dos negócios.

Só vai conseguir parar de ler quando virar a última página deste livro!





segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

[Crítica Contemporânea] "Onde o Desejo se esconde", de Nora Roberts [Chá das Cinco]

Ficha Técnica:


Título: Onde o Desejo se esconde


Autora: Nora Roberts


Edição: Julho de 2015


Editora: Chá das Cinco [Saída de Emergência]


Nº de Páginas: 288


Género: Thriller Romântico


Classificação atribuída no GR: 4/5 estrelas


Saiba mais detalhes sobre a obra  e leia as suas primeiras páginas AQUI


Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:


Onde o Desejo se esconde é um trepidante thriller romântico escrito com a mestria a que Nora Roberts já habituou os seus fãs, sendo o segundo romance da série D.C. detectives, cuja acção decorre em Washington.

Nesta obra com um enredo bem tecido, pautado por acção, perigo, violência, crime, mas também muita paixão e romantismo, numa combinação perfeita entre todos estes ingredientes, encontramos como protagonista feminina Grace MacCabe, uma famosa escritora de policiais, que se desloca à capital dos Estados Unidos, em visita à irmã - Kathleen, Professora que atravessa uma fase menos boa na vida, na sequência de um divórcio complicado que pôs fim ao casamento, algo de fachada, com o pretensioso e arrogante advogado Jonathan Breezewood III.

O caminho de Grace irá cruzar-se com o do detective Ed Johnson, que reside no bairro simples onde habita Kathleen, e ainda que com muitas reticências de Ed e do seu colega Ben Paris (protagonista do primeiro livro da série), a escritora decide envolver-se activamente numa investigação que pretende descobrir a identidade de um perigoso assassino em série que escolhe as suas vítimas entre as operadoras de uma empresa de telefonemas eróticos.

É curioso ir assistindo ao desenrolar da trama, com inúmeros momentos de tensão, e assistirmos ao nascimento da cumplicidade crescente entre Grace e Ed, duas personalidades fortes mas muito díspares, à medida que vamos também penetrando na mente perturbada do assassino e das suas vítimas.

Um livro que é puro entretenimento, que se lê num ápice, mas que nos leva a pensar em diversos temas próprios das sociedades modernas, como o impacto das novas tecnologias no dia a dia e na vivência da intimidade. Podemos indagar sobre que factores podem levar uma mulher a tornar-se operadora de linhas eróticas? - rendimento extra, viver fantasias adoptando uma espécie de alter ego e fugir, assim, à rotina do quotidiano, e também, no reverso da medalha, o que levará os homens  a usufruir deste tipo de serviço? viver uma realidade paralela e proibida sem consequências de maior na vida familiar, dado não haver ligação emocional nem contacto físico? Procurar uma alternativa de conforto para a solidão e para a rotina? Viver uma identidade alternativa onde poderá idealizar-se a si mesmo e ao outro de modo mais gratificante?

Muito interessante foi também a forma como Nora Roberts construiu a personagem do assassino em série, pois a pouco e pouco, vamos penetrando no seu contexto familiar, e ficamos com a noção de que, por vezes, nem sempre o que parece um modelo de família perfeito acaba por se revelar enquanto tal. Em termos psicológicos, encontramos no assassino um homem que tendo tido problemas em construir uma identidade própria, e tendo dificuldade em seguir e acompanhar um modelo parental bastante poderoso e marcante, encontra no crime, e na relação de fantasia sexual que estabelece com as suas vítimas, uma forma de afirmar o seu poder e de provar a sua grandiosidade e inteligência, desafiando também as autoridades.

Temos, pois, aqui um romance que pode ter várias leituras, mas que satisfaz plenamente quem procura uma história marcante, mas com muito romantismo à mistura, e cuja leitura se recomenda.


terça-feira, 17 de novembro de 2015

[Crítica Contemporânea] " Um Desejo por uma Estrela", de Trisha Ashley [Quinta Essência]

Ficha Técnica:

Título: Um Desejo por Uma Estrela


Autora: Trisha Ashley


Editora: Quinta Essência [Grupo LeYa]


Edição: Novembro de 2015


Páginas: 468


Género: Romance contemporâneo/ficção romântica


Saiba mais detalhes sobre a obra AQUI




Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:

   Um Desejo por Uma Estrela, de Trisha Ashley, é um romance doce, comovente  e bastante adequado à época festiva que se aproxima muito pelas temáticas que evoca.

   A nossa protagonista feminina é Cally Weston, uma jovem mãe solteira apaixonada pela arte da confeitaria, jornalista e autora especializada em receitas de doces, e que vive focada na sua pequena filha Stella, uma criança intuitiva, inteligente mas bastante frágil  devido a um problema de saúde que requer uma intervenção cirúrgica arriscada e dispendiosa.

   Confrontada com a necessidade de procurar ajuda para enfrentar e custear o tratamento da filha, Cally regressa às origens familiares, mais concretamente, a Sticklepond, aldeia natal da mãe de Cally, a excêntrica e distraída pintora Martha Weston que, apesar de habituada a viver sozinha, recebe a família de braços abertos e num clima de carinho e cumplicidade verdadeiramente enternecedor.

   Inusitadamente, Cally encontrará na pequena aldeia o encantador Jago, pasteleiro com o qual partilhará cumplicidades, receitas e ,quem sabe, algo mais, enquanto ambos são assediados por relações tóxicas dos respectivos passados a que terão de saber resistir.

     Um dos aspectos mais marcantes deste sensível romance é , por um lado, a descrição da vida numa pequena aldeia do reino unido, longe da grande cidade, e por outro, o evidente espírito de comunidade imbuído de solidariedade para com uma causa muito especial, que se trata de reunir recursos para ajudar à recuperação da pequena Stella, que, com a mãe, é prontamente integrada na população local, a todos conquistando com a sua sinceridade por vezes desarmante e algo embaraçosa para a mãe.

   Para as adeptas da doçaria, o livro vai também desvendando diversos doces locais e internacionais, e contém mesmo algumas receitas compiladas pela autora que acabam por se revelar o remate perfeito para esta leitura verdadeiramente doce e envolvente, que nos faz sentir o conforto e momentos de evasão tão desejado nesta época difícil que atravessamos.

   Terno, suave, sensível e muito romântico, é um livro que facilmente devoramos num fim de semana, preferencialmente, na companhia de um chá e bolachas caseiras.




terça-feira, 23 de junho de 2015

[Crítica Contemporânea] "Fim de Semana Inesquecível", de Veronica Henry [Quinta Essência]

 Ficha Técnica:


Título: Fim de Semana Inesquecível

Autora: Veronica Henry

Editora: Quinta Essência [Grupo Leya]

Edição: Maio de 2015

Páginas: 376

P.V.P: 15,50€

Género: romance contemporâneo

Pode saber mais detalhes como a obra e como a adquirir
AQUI

Crítica por: Isabel Alexandra Almeida [Blog Os Livros Nossos].



   Fim de semana inesquecível é um romance contemporâneo feminino que facilmente conquista e envolve as leitoras numa onda de empatia para com as diversas personagens criadas por Veronica Henry.

   A receita é simples, mas o sucesso é garantido. A acção decorre em Pennfleet, na Cornualha, no hotel Townhouse by the Sea, explorado por Claire e pelo namorado, o sensual Chef Luca, desfila uma galeria de personagens que trazem consigo o peso de segredos, dúvidas e conflitos internos, assim como as consequências de opções que tomaram ou foram forçados a tomar por diversas circunstâncias ao longo das respectivas histórias de vida.

  Claire leva uma vida aparentemente perfeita, tem um negócio de sucesso, gosta daquilo que faz, encontrou em Luca um parceiro satisfatório, e tudo parece correr-lhe de feição, até ao momento em que chega ao Hotel Nick Barnes, o seu primeiro amor, um homem que a marcou enquanto adolescente e jovem adulta, e que a fará revisitar algumas mágoas do seu passado, e uma história que algures ficou interrompida. Nick assume inadvertidamente o papel de hóspede no hotel de Claire, encontrando-se ali para celebrar a sua despedida de solteiro com um grupo de amigos, o que o colocará e a Claire num turbilhão emocional que urge resolver.

  Luca é um chef bem sucedido, ambicioso e egocêntrico, pelo qual Angelica, funcionária do hotel nutre uma paixão secreta.

   Os hóspedes aguardados para um fim de semana prolongado no hotel, escondem cada um deles, os seus pequenos grandes dramas na suas narrativas pessoais, e nem tudo o que parece é!

 Os milionários Trevor e Monique Parfitt vivem uma existência de ostentação, escondendo uma perda que mudou para sempre as suas vidas.

 Collin Turner dispõe-se a gozar de um merecido período de férias com a sua filha Chelsey, a filha que resultou de uma relação extra-conjugal com a instável e perturbadora Karen, mas surgem momentos em que decisões urgem ser tomadas, independentemente das consequências.

Laura Starling e o namorado Dan deslocam-se a Pennfleet não para um fim de semana romântico, como seria expectável, mas em busca de uma pista relativa à identidade e paradeiro do pai que Laura nunca conheceu. Irá a jovem ser bem sucedida?

E assim se cruzam pelo romance várias histórias de vida, com especial destaque para a intriga central de que são protagonistas Claire e Nick, sendo a leitora convidada a revisitar uma antiga história de amor familiar e pessoal, através de flashbacks que nos mostram o passado de Claire.

 Uma história emotiva, sensível, numa escrita de fácil leitura e também imbuída de um toque de ternura que não deixará ninguém indiferente, e uma galeria de personagens bastante consistentes e em aceso conflito psicológico. Uma leitura ideal para este Verão!








quinta-feira, 28 de agosto de 2014

[Crítica Contemporânea] "Quando éramos mentirosos", de E. Lockhart [Asa]



Autora: E. Lockhart

Editora: ASA [Grupo LeYa]

Edição: Maio de 2014

Páginas: 312

Género: Romance contemporâneo

Saiba mais detalhes sobre esta obra e como adquirir online AQUI


Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:

   Quando éramos mentirosos, de E. Lockhart [Pseudónimo de Emily Jenkins, autora Norte-Americana a residir em Nova Iorque, detentora de um Doutoramento em Literatura Inglesa] constituiu uma excelente surpresa, tratando-se de um romance contemporâneo que pode ser inserido na categoria de Young Adult, mas que se destaca pela originalidade, pela especificidade, beleza e pelo carácter sui generis da escrita da autora, capaz de nos prender de forma verdadeiramente inebriante às páginas do livro.

   Como cenário central da narrativa vamos encontrar a bela ilha privada de Beechwood, no Massachusets, propriedade da poderosa, abastada e aparentemente perfeita família Sinclair, e o local de eleição para as férias de Verão deste clã.

  Os Sinclair ostentam e alimentam uma imagem pública de classe, beleza, bom gosto e fortuna, mas vamos ter oportunidade de ir desvendando obscuros segredos familiares, ao travarmos conhecimento com a narradora, e participante na trama, a jovem adolescente Cadence Sinclair Eastman, uma jovem inquieta, que evidencia uma nítida perturbação do foro psicológico ou mesmo psiquiátrico, mas que nos transmite o seu olhar sobre a intimidade familiar, convidando-nos a desvendar o que se esconde por detrás das belas mansões familiares e do universo à parte que constitui a Ilha privada da família.

  Logo no início do livro encontramos uma árvore genealógica dos Sinclair, e uma planta da Ilha, que nos facilitam a compreensão da história e o modo como se articula o dinamismo narrativo de todas as personagens. Iremos conhecer o rígido patriarca da família - Harris Sinclair e a esposa Tipper, bem como as suas filhas e sua descendência - Carrie Sinclair [mãe de Johnny e Will]; Bess Sinclair [mãe de Mirren, das gémeas Liberty e Bonnie, e do pequeno Taft], e Penny Sinclair [mãe da protagonista Clarence].

  À família juntar-se-á Gat, um jovem de ascendência Indiana, sobrinho de Ed [negociante de arte e companheiro de Carrie, por sua vez tia de Cadence] um jovem considerado pela família, intimamente, como um outsider de inferior classe social, mas que é acolhido para passar o verão, a partir dos oito anos, tendo perdido recentemente o pai. Gat revelar-se-á um jovem bastante atento, inteligente e culto, e a paixão que surge entre Cadence e Gat irá abalar, de algum modo, a estrutura familiar dos Sinclair, já bastante frágil, uma vez que vivem todos isolados em ridículas disputas pelo poder e pelo "ter", escondendo tudo o que é negativo e evidenciando uma perfeição que é completamente ilusória.

  Num mundo onde impera a dissimulação, a futilidade e a perturbação mental, Gat e Clarence, apesar de jovens, irão conseguir descortinar que muitos dos principios e pressupostos ali vigentes estão, à partida, errados e são bastante limitadores em relação aquilo que é o mundo real cá fora!

  Os mais jovens vão reflectir, inevitavelmente, a instabilidade latente resultante de um mundo de aparências, de casamentos desfeitos, de relações afectivas falhadas desde a origem, e a narrativa divide-se entre o tom intimista, perturbador e perturbante tantas vezes assumido por Clarance, e o clima de mistério que se vai adensando até ao desenlace verdadeiramente genial e inesperado.

   Um livro que se lê de um ápice, que nos fará pensar sobre um certo estilo de vida que, estando aqui centrado na classe alta norte-americana, tantas vezes pode ser transversal a vários outros meios sociais e culturais, onde o poder, a riqueza e o sucesso aparentes escondem, muitas vezes, ocultas fragilidades.

Sublime,sui generis e um verdadeiro must read de indiscutível qualidade literária!

Classificação atribuída do Goodreads 5/5 estrelas.