sábado, 21 de julho de 2012

[Gostámos] "Saga das Pedras Mágicas", de Sandra Carvalho - Parte 2

(Revisto)

Desde que tomei conhecimento desta saga, em 2005/06, que ansiava ler os livros desta autora. As capas foram, novamente, um chamariz que me fizeram sonhar e, mais tarde, comprar. O que me impediu de o fazer mais cedo foi o medo de que as minhas expectativas fossem demasiado altas. De não gostar da temática nórdica, da escrita, de ser de uma portuguesa (tamanho é o nosso preconceito!), de tudo e mais alguma coisa. Perdi a conta aos entraves que criava sempre que desejava comprá-los. Após quase três anos sem ler um livro, Sandra Carvalho devolveu-me a esperança. O meu gosto pela leitura não estava perdido, tinha ficado apenas adormecido. A partir daí, nunca mais voltei a parar de ler ou a sentir-me aborrecida por ter de ler um livro. 

Penso que posso afirmar, sem exageros e orgulhosamente, que Sandra Carvalho é uma das melhores escritoras do nosso país, dentro do género Fantástico, cujas obras foram das melhores que já tive o prazer de ler. Principalmente por ter brilhado num género difícil de agradar como é o Fantástico.  Há quem a compare com a trilogia de Sevenwaters de Juliet Marillier, mas eu nunca a li, por isso não posso confirmar ou desmentir. 

Desenganem-se os que pensam que a escrita da autora é aborrecida, infantil ou mesquinha. É precisamente o oposto. As descrições estão muito bem construídas, a realidade de uma história fantasiada nota-se tão à flor das páginas, digo, da pele! Vê-se que, para além da paixão com que escreve, fez muita pesquisa sobre os povos nórdicos para tornar a obra o mais realista possível. Tenho aprendido imenso sobre os costumes, as roupas, as comidas, as viagens... Com todos estes pormenores, Sandra mantém-nos cativos das suas palavras, desde a primeira frase até à última. Pensava que exageravam quando diziam que esta autora era uma exímia contadora de histórias. Não exageraram, de todo.

Os livros da saga, embora de um género virado mais para o público jovem, podem ser lidos por todas as idades. É verdade que contém cenas algo chocantes ante a realidade monstruosa que está por detrás. É também verdade que contém algumas cenas sensuais e picantes! Mas… Sandra expõe-nas de forma tão apaixonante que não tem o carácter erótico que poderiam ter, se fossem escritas por outra autora. As cenas mais ardentes entre os dois personagens principais são isso mesmo, apenas ardentes. São apaixonantes. Fulgurantes. Repletas de amor. 

De acordo com o que consegui apurar, a Saga atravessa, pelo menos, três gerações. Como eu já li três, apanhei duas. A geração da Catelyn e do Throst (A Útima Feiticeira e O Guerreiro Lobo) e Edwina e Edwin (Lágrimas do Sol e da Lua, etc.). Podem ler as sinopses dos três primeiros livros, aqui.

Toda a narrativa está bem construída e o enredo é absolutamente de cortar a respiração. Já as personagens, todas elas fascinantes e totalmente diferentes, não nos desiludem também. Choramos com elas, rimos e espumamos de raiva. Consegue transmitir-nos tanto apenas com o dom da palavra.

Adoro especialmente a profundidade emocional com que impregna a sua história. Para além da magia que envolve a família e dos dissabores que envolvem os antagonistas, os outros pontos mais altos, se é que é possível fazer uma distinção, são os valores da família e do amor, romântico e familiar.

É impossível parar de ler. Só me lembro de que tenho de parar, quando a barriga se queixa e dá horas ou os olhos acusam cansaço e acabam por fechar.

Aconselho vivamente a lerem, mesmo não morrendo de amores pelo género, tanto mais não seja por ser de uma Portuguesa! Além da fantasia, a Saga de Sandra Carvalho é muito mais do que isso. E tudo o que eu disser aqui vai ficar muito aquém da realidade. 

Ivonne

[Gostámos] "Saga das Pedras Mágicas", de Sandra Carvalho - Parte 1


Hoje, trazemos uma saga muito querida e de... uma Portuguesa, Sandra Carvalho.Insere-se no género Fantástico e vale muito a pena lê-la.

Desta saga, ainda só li "A Última Feiticeira", "O Guerreiro Lobo" e "Lágrimas do Sol e da Lua". Não me quis estar a repetir, fazendo três opiniões para os três livros que li, já que a minha opinião mantém-se fiel desde o primeiro volume. O terceiro, acabei-o ontem e a Isabel pediu-me que escrevesse o review. 

Não me fazia sentido escrever apenas do terceiro. Por isso, achei por bem, criar um post em que colocasse as sinopses dos três livros, para terem um fio condutor acerca da história e não se perderem. A opinião virá depois.

Por agora, ficam as sinopses:

"A Última Feiticeira"


Sinopse: O fantástico épico está novamente de parabéns com mais uma estreia literária de uma autora portuguesa que a Presença propõe ao seu público. Em A Saga das Pedras Mágicas os heróis, diz-nos Sandra Carvalho, têm uma profunda ligação à Natureza e aos Elementos, são apaixonados pela Vida e inteiramente determinados na sua coragem. A acção passa-se num tempo em que os sábios Druidas se recolhiam nas florestas para perpetuarem o Conhecimento que em eras passadas lhes fora transmitido pelos Seres Mágicos. O berço da heroína desta história, Catelyn, e dos seus cinco irmãos varões, situa-se na Grande Ilha, cada vez mais fustigada pelos ataques dos Viquingues. Os senhores locais formaram uma Aliança para os repelirem, consolidando essa política através de casamentos combinados entre os herdeiros das grandes famílias. Depois de uma infância paradisíaca, Catelyn cresce num mundo cada vez mais violento, assistindo impotente às manipulações da maldosa Myrna, a protegida do homem com quem o pai de Catelyn destinou casá-la. 

 "O Guerreiro Lobo"


Sinopse: Na sequência dos dramáticos acontecimentos que encerram o primeiro volume desta saga, A Última Feiticeira, Catelyn é levada com os seus captores para a Terra Antiga. Aí, a jovem feiticeira descobre os fios que entretecem o seu próprio destino com o daqueles que agora a acolhem. Descobre igualmente que aquele viquingue que a salvou de uma morte certa é alguém que ela já tinha vislumbrado em intrigantes visões. Throst, filho de Thorgrim, é agora o seu senhor. Mas os segredos do Universo, guardados no topo da Montanha Sagrada são indiferentes aos desígnios humanos. Catelyn anseia por apoiar as mãos na Pedra do Tempo e encontrar a solução para os enigmas que a atormentam, assim como por prosseguir a sua aprendizagem da Arte Superior. Quando o sangue derramado no mar clama por vingança, a heroína enfrenta a mais difícil das decisões: regressar à Grande Ilha, para derrotar Gwendalin e salvar o seu povo, ou permanecer na Terra Antiga, livrar o Guerreiro-Lobo da maldição que o condena, e ajudá-lo na sua grande missão?

  "Lágrimas do Sol e da Lua"


Sinopse: No coração da Floresta Sombria, Aesa, rainha do povo vândalo e mestra da Arte Obscura, engendra um plano para se apoderar das sete pedras mágicas da Feiticeira Aranwen. Entretanto, na Ilha dos Sonhos, Catelyn e Throst, o Guerreiro-Lobo, preparam as suas filhas Edwina, Thora e Freya para assumirem os seus próprios destinos. Edwina, a primogénita, aceita tornar-se Guardiã da Lágrima do Sol e aguarda o chamamento da Pedra do Tempo. Do outro lado do mundo, Sigarr, irmão de Aesa, treina Edwin para tentar concretizar a profecia que dita que o filho varão do Rei da Lua e da Rainha do Sol terá o poder de fundir a Arte Obscura e a Arte Luminosa para atingir o conhecimento absoluto. Alcançará ele o seu propósito ou ainda haverá esperança de libertar a Lágrima da Lua? 


Ivonne

sexta-feira, 20 de julho de 2012

[Entrevista] Vasco Ricardo, "A Trama da Estrela"

Neste mês de Julho, entrevistamos o autor Vasco Ricardo, que se estreou pelas lides literárias com o seu Thriler "A Trama da Estrela",publicado pela Pastelaria Studios, já alvo de análise aqui no blog. O Vasco é natural de França, onde residiu por dez anos, actualmente reside em Vila Nova de Famalicão. Desde já agradecemos a sua disponibilidade para responder a estas perguntas.
Segue-se, então a entrevista realizada por Liliana Novais.

(Foto gentilmente cedida pelo autor)


1.       Qual foi a sensação de ter o seu livro no programa do Marcelo Rebelo de Sousa?

Conhecendo a idoneidade de Marcelo Rebelo de Sousa, bem como a seriedade que impõe a cada opinião que incute, não podia sentir-me melhor. É com um enorme orgulho que encaro o facto de o professor ter aconselhado o meu livro como uma leitura a ter neste Verão. É, na realidade, mais um incentivo para continuar a escrever.

2.       Como caracteriza a experiencia de lançamento e divulgação do seu livro? Que tipo de feedback tem recebido da parte do público leitor?

O lançamento foi engraçado. Senti-me estranhamente calmo. Hoje sei que essa sensação de conforto se deveu em grande parte ao Joel Cleto (historiador e apresentador) e à Teresa Queiroz (directora editorial) que estiveram esplêndidos e aos quais, uma vez mais, agradeço. Correu tudo muito bem. A divulgação tem sido surpreendente. Tenho tido alguma receptividade de órgãos com os quais nunca tinha contactado antes, o que me leva a ficar esperançado relativamente ao futuro próximo. O feedback dos leitores tem sido extraordinário, e espero continuar a receber cada vez mais opiniões por parte deles.

3.       Quais são as suas influências?

Não existe alguém que eu possa dizer que seja uma inspiração em particular ou um autor que diga que se destaque de forma vincada sobre os demais. Fico com um bocadinho de tudo o que leio. Na verdade, numa conversa informal, Teresa Queiroz classificou a minha escrita como sendo anglo-nórdica, algo sarcástica, algo directa. É um facto que gosto particularmente dos escritores do norte da Europa.

4.       Pode-se dizer que o thriller é o seu género de eleição?

Sim, o thriller é, dentro do que tenho feito, o género que se tem evidenciado. Das ficções que escrevi o suspense e a acção têm sido características permanentes. ‘A Trama da Estrela’ envolve uma conspiração, outros, porém, são mais psicológicos ou sociais.

5.       Onde se inspira para escrever?

Geralmente surge-me uma ideia vinda do nada, ou através de um pormenor que observo por um mero acaso. Já tive temas que surgiram a conduzir, no multibanco, numa esplanada ou num aeroporto. É quase uma sorte aleatória. Quanto ao acto da escrita propriamente dito, existe apenas uma coisa que me inspira: o cursor do rato a piscar, à espera que lhe deite ‘a mão’.

6.       Como foi ver o seu primeiro livro editado?

Contrariamente ao que esperava, não me senti excessivamente feliz ou realizado. Não considerei que tivesse sido um marco até então inalcançável. Ainda hoje amigos fazem-me essa pergunta, ou outras similares, e julgo que ficam desiludidos com a minha resposta aparentemente ausente. Este é um livro que fiz com muito prazer, mas estou já a pensar nos próximos a publicar e a escrever. Afinal, o que conta é o caminho a percorrer e eu espero que seja um caminho muito longo.

7.       Segue um plano disciplinado, com horários específicos para a escrita, ou aproveita a livre fluidez das ideias?

Não sigo planos nem tenho quaisquer rituais que necessite para que o processo de escrita se desenvolva. Geralmente é de noite que escrevo, quando o ambiente está mais calmo e as interrupções são menos prováveis. Limito-me a ligar o computador e deixar que as palavras surjam. Na maioria das vezes a inspiração aparece com o empolgamento daquilo que sai da minha cabeça. Certas noites saem dez páginas, noutras apenas uma. Varia um pouco com o momento da narrativa e com o meu estado de espírito.

8.       Viveu em França 10 anos, baseou-se na sua experiencia pessoal para a descrição de Paris?

Sim, não só de Paris como de outros locais. Logicamente que Paris deu-me um gosto especial porque é a cidade mais bela que já vi e pela qual tenho uma forte ligação. Aliás, já lá fui três ou quatro vezes depois de ter me ter estabelecido em Portugal e conto visitá-la novamente até ao final de 2013. Contudo, quando penso no capítulo que ocorre em Paris sinto-me como se estivesse lá, com os personagens do livro, ainda que de forma omnipresente.

9.       Perspectivas de futuro, veremos novamente as personagens?

Essa é uma pergunta difícil de responder. ‘A Trama da Estrela’ deixa alguns tópicos em aberto. Durante a apresentação, Joel Cleto assumiu que achava que de entre as ficções que eu já tinha desenvolvido uma (ou mais) delas estava certamente relacionada com este livro. Tive de o desmentir, felizmente apenas por essa ocasião, porque de facto não tenho. Contudo, se o sucesso surgir, terei todo o gosto em dar vida a Mark, Rohan e Dana, assim como aos conspiradores.

10.   Escreveu o seu livro após o nascimento da sua filha, acha que o facto de ser pai influenciou?

Sim, o facto de ser pai influenciou em larga escala este gosto que tenho desenvolvido. Na realidade, foi a partir do momento em que soube que a Bianca vinha a caminho que comecei a escrever desenfreadamente e não mais parei. Foi quase como um milagre.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

[Gostámos] "Um Toque de Perversão" , de Jennifer Haymore








Um toque de perversão, (com o título original - A Hint of Wicked) é um romance histórico, cuja acção decorre em Inglaterra no Século XIX, na sequência da Batalha de Waterloo.
Garrett, o Duque de Calton, é dado como desparecido na referida batalha, e durante sete anos, a Duquesa Sophie e o primo do Duque - Lorde Tristan Westcliff - envidam todos os recursos ao seu dispor para o procurarem, mas sem sucesso.



Entretanto, o destino prega uma cruel partida a este trio aristocrático, e o Duque de Calton regressa passados sete longos anos, vivo, e disposto a retomar a sua vida de volta, assim como o amor de Sophie, a qual entretanto, reconstruira a sua vida junto de Tristan, o qual assumira a administração das propriedades do Duque.

Sophie vê-se então dividida entre dois amores, e surge ao longo do livro a questão sempre latente: pode Sophie amar ambos os homens? Como irá ela tomar a mais importante e dolorosa decisão de toda a sua vida? Como se explica o misterioso desaparecimento do Duque de Calton, durante longos anos e tendo sido arduamente procurado pela família que tanto o estimava? Estes são alguns dos dilemas colocados durante a narrativa.

A autora traça um retrato fiel da sociedade Inglesa do Século XIX, com o seu puritanismo por vezes exacerbado, as convenções sociais levadas ao extremo, e uma justiça que compactua com esta visão deveras limitada da moralidade vigente.

Em simultâneo, a autora soube habilmente inserir na obra um toque de sensualidade, em especial, descrevendo de forma explícita, porém elegante, os envolvimentos sexuais que as personagens vão tendo, mas onde o sexo surge envolvido num indiscutível turbilhão emocional, e por isso em nada choca o leitor este aspecto da obra.

No último terço da obra, e à medida que vamos descobrindo as respostas, surge também um momento de acção, com a perseguição a um crimonoso desevolvida por algumas das personagens, o que, a nosso ver confere à obra, um carácter de originalidade e também bastante dinamismo.

Em suma, uma leitura que recomendamos aos amantes do romance histórico e/ou sensual

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English Version of the book review:

A  Hint of Wicked (“Um toque de perversão” in the Portuguese Edition) it´s an historical novel, whose action takes place in England in the nineteenth century, following the Battle of Waterloo.


Garrett, the Duke of Calton, apparently disappeared in that battle, and for seven years, the Duchess Sophie and the Cousin of the Duke - Lorde Tristan Westcliff – used all the resources at their disposal to seek him, but without success.


However, the destiny  preached a cruel departure  to this  aristocratic trio, and the Duke of Calton returns after seven long years, alive, and ready to resume his life back, as well as the love of his wife Sophie, which however, had reconstructed her life with Tristan, which had  taken  the administration of the properties of the Duke.


Sophie is then divided between two loves, and appears throughout the book the question always latent: can Sophie love both men? How will she take the most important and painful decision of her entire life?


How can be explained the mysterious disappearance of the Duke of Calton, a man that was loved by his family, a family that  A family that had sought him zealously?

These are some of the dilemmas posed during the narrative.



The author draws a faithful portrait of the English Society  of the nineteenth century, with its Puritanism,  sometimes exacerbated, the social conventions carried to the extreme, and a judicial system  that stands for this truly limited vision of  the prevailing morality. At the same time, the author wisely  inserted  in the plot a touch of sensuality, in particular, describing explicitly, but  in a very elegant way, the sexual involvements that the characters are having.



 In this story,  sex is involved in a undisputed emotional turmoil, and therefore, this detail it´s not  shocking to the reader.



 In the last third of the book, and to the extent that we are discovering the answers, there is also a moment of action, with the persecution  of a criminal made by  some of the main characters, which, in our view gives the work, the character of originality and also some dynamism.


 In short, a reading that we recommend to all the readers who  appreciate historical and sensual novels.


Entrevista com a autora / Author´s Interview


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[Entrevista] - Célia Loureiro, autora de "Demência"

 Aqui está a primeira Entrevista d'Os Livros Nossos, publicada no principio de Maio. De forma a tornar mais funcional a Página "Entrevistas", deslocámos esta primeira entrevista para a área geral de posts, fornecendo o link na Página para o efeito.

Agora num novo formato, publicado a 8 de Agosto de 2012



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     Para iniciar esta rubrica do nosso blogue, começámos por entrevistar a Escritora Célia Correia Loureiro, autora do livro "Demência" cuja revisão/crítica tivemos oportunidade de fazer aqui no blogue, após leitura integral da obra.

    "Demência" com a Chancela Alfarroba Edições é um romance que ultrapassa largamente os estereótipos de género literário usualmente associados esta classificação.

 
Entrevista conduzida por: Isabel Alexandra Almeida – Autora e Coordenadora do Blogue Os Livros Nossos

1)- Célia, com que idade começou a sentir a necessidade de escrever? Alguém especialmente a motivou a escrever?
Nunca houve um momento em que eu me sentasse e dissesse "quero ser escritora", ainda hoje não digo isso. Mas sempre achei que tinha qualquer coisa a dizer, e a liberdade máxima só poderia advir da minha possibilidade de criar o que quisesse. A escrever nunca ninguém me motivou, nem nunca tive uma professora a dizer-me que tinha muito jeito para a escrita nem nada do género. Mas a ler sim, tenho uma prima que me pôs a ler desde cedo e eu vi um mundo de possibilidades abrir-se à minha frente. Sempre preferi um mundo inventado a este e vivo-o através dos livros e da escrita desde cedo. A minha memória mais antiga da "criação" de uma história é de antes da primária, porque só dispunha de uma caneta de feltro preta, que se comprava avulso na papelaria, e com a qual pintava cenários e os sobrepunha, como pequenas histórias povoadas de animais, princesas e bruxas. Teria quê? Quatro anos? Depois, escrever mesmo, só aí aos 12 é que comecei a enveredar por enredos mais complicados.
2)- Além de escritora a Célia é também leitora aficionada e tem um blogue de opinião literária http://castelos-de-letras.blogspot.pt/ - na sua opinião, a que factores se deve a menor apetência de muitos jovens para a leitura?
Eu uma vez li que a informática, ao facilitar o armazenamento de dados, retirou à mente humana essa necessidade. Há uma ou duas gerações atrás, recitavam-se poemas de cor. Hoje em dia saber-se o número de casa de cor é um milagre, acreditamos sempre que haverá qualquer suporte à mão que nos alivie a tarefa de saber as coisas de cor. Além disso, hoje em dia existem mil e uma maneiras de transportar um jovem para outras realidades. A internet, os filmes, as consolas de jogos, etc, etc. No meu tempo, um livro ainda era uma promessa de entretenimento. Hoje é preterido a outras distrações mais aliciantes e que exigem menos dos jovens. Um livro é uma viagem solitária e, por vezes, acidentada. Parece mais tentador - embora menos gratificante - resumi-lo a uma hora e meia de filme com a família.
3)- Quanto tempo demorou a escrita do seu Livro “Demência”?
O Demência foi escrito entre 2009 (Outubro, creio) e Julho de 2011. Demorou este tempo porque fiz uma grande pausa pelo meio. A vontade - e a inspiração - costumavam vir-me em períodos específicos do ano. Geralmente, era sempre depois das férias do verão. Quando regresso à rotina, quando o sol começa a fugir para o hemisfério sul, é quando fico mais atenta, mais sensível ao que se passa em redor e, consequentemente, é quando sou capaz de me expressar melhor. O Demência sofreu várias interrupções e depois foi terminado de um sopro.
4)- No seu livro, a Célia promove a reflexão sobre temas tão importantes como a violência doméstica, a degradação física e psíquica gradual associada ao envelhecimento, o isolamento de algumas populações do interior do País. Como é que a Célia se documentou para retratar com tanto detalhe e realismo o ambiente de uma aldeia?
Quanto ao ambiente de uma aldeia, não tive de fazer pesquisa alguma. Só tive de pegar nas minhas memórias de infância e adaptá-las à gravidade que as situações poderiam adquirir quando se trata de questões mais sérias do que aquelas com que uma criança lida. Eu sempre adorei o campo e sempre fui muito observadora em relação ao seu ambiente. Porque era o absoluto oposto daquilo a que eu estava habituada. Sempre fiquei meio assombrada por ver o modo como o ambiente condiciona crenças, modos de vida, costumes, superstições, o próprio certo e o errado. Sempre lhes invejei a liberdade, também. Aquelas pessoas estão cingidas a um pequeno espaço, que assume assim a dimensão do mundo inteiro, e circulam nele como se circulava quase há séculos atrás. Acho que esse modo de vida é digno de respeito, acarreta outros saberes, outras aptidões, que por aqui se perdem. A tradição do dia das bruxas, por exemplo, é mágica para mim até hoje! A procissão ao cair da noite, as abóboras recortadas e os olhos iluminados pela vela no interior... Para além desta aldeia da minha avó, já passei por outras. Sentar-me ao lado de um velhote, no largo da sua aldeia, é como entreabrir um livro de etnologia, de história, de vida. Guardo boas memórias de muitos velhotes que admirei. Um deles, por exemplo, foi uma senhora algarvia, numa aldeia minúscula, que se sentou ao meu lado no largo. Estava preocupada e perguntei-lhe o que se passava. Ela disse que estava a esquecer-se das coisas. Foi um momento de desabafos angustiantes. Deu uns quantos exemplos de situações do dia-a-dia que estavam a ocorrer. Arranjei um papel e uma caneta na casinha mais próxima e escrevi-lhe o nome da doença da minha bisavó. Dei-lho e pedi-lhe que se se lembrasse dele, o desse ao seu médico no dia seguinte. Alzheimer.
5)- O título “Demência” foi algo provisório que se converteu em definitivo e é anterior ou posterior à finalização da obra?
«Demência» foi a primeira palavra que eu escrevi naquele manuscrito, como título. Fiquei muito feliz quando vi que a sua crítica entendeu que eu me propus a escrever algo que viesse associado ao entendimento popular desta palavra - e não exactamente ao termo científico, embora a Olímpia tenha Alzheimer. A loucura no livro, aquilo que o povo associa a demência, é a visão limitada por uma falsa moralidade da maioria dos aldeões que vivem naquela aldeia.

6)- Considerando o processo criativo literário, a Célia escreve a um ritmo diário ou pontual, aquando de golpes de inspiração?
Não sou uma pessoa disciplinada - em praticamente nada na vida. Recuso-me a fazer fretes. Assumo responsabilidades mas não sou capaz de me obrigar a ser infeliz para as cumprir. E não quero encarar a escrita como um frete. A escrita é uma escapatória, uma salvação, é liberdade absoluta e tem-me feito feliz de inúmeras maneiras. É um autêntico bálsamo para os males do dia-a-dia. Por isso, embora agora ande a escrever com muito mais frequência, não tenho hora marcada. É quando me surge a ideia que me sento a registá-la. Esteja em casa, num transporte público ou, em tempos, na própria sala de aula. É meu direito ausentar-me para dentro de mim, se nada de maior exigir a minha presença.
7)- Sente que ainda existe um pouco a ideia pré-concebida, entre a maioria dos leitores, segundo a qual um autor estrangeiro é melhor do que um autor Português? Em caso afirmativo, a que se deve tal preconceito, e como pensa que se poderá começar a alterar tal visão das coisas?
Lamento dizer que essa ideia existe e eu partilho dela. Mas também, o que é distinguir um autor desta nação de todos os autores de todas as outras nações? É evidente que a maioria ganha. Infelizmente a escrita portuguesa baseia-se, geralmente, nos modelos literários exteriores, que fazem sentido para esses mesmos estrangeiros, mas que depois constituem uma fraca imitação deles para nós. Mas temos bons escritores, não haja dúvida disso.
8)- Que conselho daria a quem deseje começar a aventurar-se pelo mundo da escrita? Por onde deve começar um candidato a escritor?
Acho que tem duas óptimas opções: escreva sobre algo que ele saiba muito bem e preste-se a apresentar isso aos outros, sem grandes ambições de ser grande. Seja do tamanho que é e tente ser o melhor desse tamanho. Ou então escreva sobre algo que ele crie de raiz e que queira igualmente apresentar aos outros. Não pegue em nada só porque lhe parece que é sobre isso que se quer ouvir falar. Crie novos pontos de interesse, dinamize e reclame a atenção dos leitores para algo que só ele possa oferecer.

9)- Já está a escrever o seu próximo livro, qual o género literário da sua próxima obra? Quer levantar um pouco a ponta do véu para os nossos leitores?
Tenho dois romances terminados entretanto e estou a escrever um novo. O primeiro será publicado este ano, se tudo correr como previsto. É um pouco mais cor-de-rosa do que o Demência, mas também é um desvendar de situações negativas. Falo um bocadinho de política (Estado Novo) e de questões sociais como o suicídio, a deficiência e a pedofilia. Mas o tema central é um casamento disfuncional e uma mulher que não nasceu para ser mãe. É graças a essa personagem central que os males se vão desenrolando ao redor. O livro que estou a escrever agora é um romance histórico. Escolhi a época das Invasões Francesas (Napoleónicas é mais fiel à perspectiva política da época) e estou a adorar investigar tudo sobre a altura. Li a Gazeta de Lisboa, jornal de época, consegui que me digitalizassem um capítulo de um diário e mo enviassem da Austrália, sobre uma inglesa que viveu no Portugal dessa época, mergulhei na literatura da época, estudei os costumes e os trajes e etc., assim como políticas e economia e religião e a cada página que avanço na escrita vou também mais a fundo na pesquisa. Estou a adorar estar ausente daqui, por terras do Porto, em 1809

10) – Para finalizarmos esta breve entrevista, o que é para si o acto de criação de uma obra literária?
É um exercício de arquitectura. O psicólogo de desenvolvimento da minha escola aconselhou-me a seguir arquitectura, disse que tinha um óptimo raciocínio espacial. Concordo com a última parte, mas ele falhou num ponto: eu não sei porque é que dois e dois são quatro e geometria descritiva é-me tão indecifrável quanto os antigos hieróglifos egípcios. Mas sinto-me uma arquitecta à mesma. Concebo pessoas, edifícios com estilos artísticos específicos, vou até à complexidade do sentido das histórias de vida, e à subtileza das intenções disfarçadas. O acto de criar um livro é um ensaio vivo de arquitectura, e o suporte é o livro, o esquadro é a imaginação.
Deixamos também o convite para o blogue literátio da autora Célia Loureiro - Blogue Castelos de Letras - de Célia Loureiro

[Gostámos] "Incarceron" de Catherine Fisher





Novamente, falamos sobre um livro que conjuga um cenário futurista com um cenário distópico.

A história conta a perspectiva dos dois personagens principais. O primeiro é Finn, um prisioneiro da prisão Incarceron e que não tem memórias anteriores aos seus quinze anos e, o segundo, Claúdia, a filha do Governador da Prisão. Ambos obtêm uma chave de cristal, conseguindo comunicar através dela e trabalhando para conseguirem retirar Finn e os amigos do interior da Prisão. 

Gostei da originalidade da escritora, em relação à Prisão e dos seres/locais que por lá se encontravam (seres e florestas de metal, por exemplo). 

A personagem principal feminina ficou bem desenvolvida, muito forte e, para além de intrigante, um pouco destemida também. Já Finn desiludiu-me um pouco. Pareceu-me um tanto ingénuo e demasiado crente nos amigos. Contudo, as personagens secundárias são fortes e interessantes. Gostei mais dos diálogos deles do que dos principais, apesar de que os diálogos finais entre Cláudia e Finn me tenham deixado bastante interessada no que se iria passar a seguir. Os sábios, Sapientes, que os acompanham foram um acrescento indispensável. Tornou o enredo muito mais estimulante e agradável.

Sou daquelas pessoas que adora descrições, não aborrecidas e extensas, mas aquelas em que nos sentimos a entrar dentro da história e nos sentimos como parte dela. Neste livro, achei-as fracas, tanto dos locais como das personagens. Às vezes, houve também descrições deslocadas (quem ler ou já leu, saberá o que quero dizer. Pelo menos, eu senti isso. Dava por mim a pensar “O que é que isto está aqui a fazer?”. Ou seja, alguns pormenores eram totalmente desnecessários.) E embora seja repleto de acção, não consegui entrar na história. Desconcentrava-me muitas vezes por causa deste aspecto. 

Outro pormenor que não gostei foi o fraco desenvolvimento sobre o cenário futurista geral, embora a escritora inclua alguns pormenores interessantes (acerca dos Sapientes que acompanham Cláudia e Finn). 

Nos aspectos que referi nos dois últimos parágrafos, a autora deixou muito a desejar. Digo isto, porque Catherine Fisher já escreveu imensos livros e é licenciada em Literatura Inglesa e, na minha opinião, é uma falha muito grande. Mas para quem não gosta de muitas descrições e adora o género, é um bom livro para se ler.  

Assim, a ideia geral da Prisão, embora não muito desenvolvida, é bastante interessante e inovadora. Já o final foi surpreendente, confesso que não estava à espera. Tinha teorias acerca do final, mas revelaram-se todas erradas, o que constituiu uma surpresa e culminou com o clímax que se esperava deste livro. 

Ivonne

[Gostámos] "Cobiça" - de J.R. Ward


   Após ter terminado a leitura de "Cobiça", o primeiro livro da série dos Anjos Caídos, da autoria de J. R. Ward,  concluo que esta é certamente uma saga a acompanhar e a coleccionar, na categoria dos livros a manter na biblioteca pessoal, sendo uma obra que se insere no género fantástico.

   Já familiarizada com a escrita da autora (pelo menos em dois géneros distintos : fantástico e romance), as aventuras de James (Jim) Henson, um assassino das forças especiais, arrastado como voluntário à força para a missão de Anjo Caído com a árdua tarefa de salvar sete almas a caminho da perdição não só não desapontam, como decorrem sob os nossos olhos a um ritmo verdadeiramente frenético.

A obra apresenta personagens fortes, bem definidas ao nível físico e psicológico, e cada uma delas com os seus "dramas pessoais" sempre muito presentes.

Temos um misto de fantasia, acção, erotismo, romance, glamour e também a exaltação dos valores da amizade, entreajuda e altruísmo ( logo, daqui resulta uma nota positiva para a autora) na eterna luta entre as forças do bem e as forças do mal.

Com a ajuda de dois amigos, Jim irá aceitar o desafio de salvar o milionário Vincent DiPietro (o qual tem um passado algo obscuro, mas é também dotado de uma peculiar característica sobrenatural), ajudando-o a lidar com a pérfida, maquiavélica e bela namorada deste - Devina Avale.

Outra personagem sofrida, e que muito irá surpreender os leitores, é Marie Therese Bordreaux, forçada pelas circunstâncias da sua história de vida, a percorrer caminhos que vão contra os seus princípios e valores mais evidentes, e procurando refúgio na religião, num paradoxo bastante interessante descrito pela autora, que nos narra a luta interna travada por uma personagem extremamente sofrida e marcada pelo passado, que luta pelo bem-estar do seu bem mais precioso – o filho Robbie.

Vale a pena ler e descobrir quem sairá vencedor destes combates entre o bem e o mal.

Um livro de leitura rápida, apesar de ter mais de quinhentas páginas, é um livro que todos os amantes do género irão certamente “devorar”.

Fica despertada a curiosidade para a leitura da sequela - Desejo - pois, ao que parece, no Verão será lançado o terceiro volume, sob o título "Inveja". Aguardamos com fortes expectativas a continuação desta série.

Texto por: Isabel Alexandra Almeida

quarta-feira, 18 de julho de 2012

[Gostámos] "Orbias - As Guerreiras da Deusa" de Fábio Ventura




Foi pelas administradoras de Tertúlias à Lareira e d’Os Livros Nossos que tomei conhecimento deste autor. Gostei da capa estonteante, da sinopse misteriosa, do título da obra e gostei mais ainda da jovialidade e descontracção do jovem escritor. Estes foram factores predominantes para comprar o livro e tê-lo na minha colecção. Para além de que o género (Fantástico) é a minha praia definitivamente e sendo de um Autor português, tinha mesmo de ler este livro. 

Não sabia bem o que esperar do desenvolvimento da história, mas adorei a ideia de que há um oposto para tudo. Deus, criador da Terra, um planeta comum e, a Deusa, criadora de Orbias, um mundo mágico. Dei por mim a pensar muitas vezes “Como é que ele pensou nisto? Fascinante!”. O enredo foi bem construído e envolvido em muito suspense, mistério e acção.  

Confesso que ao princípio, apesar de muito activo, me foi difícil entrar na história, nem sei dizer bem porquê e isso fez-me ficar um bocadinho de pé atrás. A obra começa com versões alternadas de duas personagens (femininas!) principais, na primeira pessoa e, talvez por isso me tenha sido difícil acompanhar. Talvez porque os narradores dos últimos livros que li antes deste tenham sido personagens principais (sensivelmente uns cinco!). Ressalvo que o escritor não teve culpa desse aspecto, fui eu e ignorei a falta de concentração que sentia. Ainda bem que o fiz. Li a última metade do livro em menos de um dia.

As seis Guerreiras, todas diferentes, mostram a sensualidade que a sinopse promete. Todavia, dava por mim a pensar se o tinha feito de forma “correcta”. Não sei se o escritor não estereotipou um pouco o pensamento e a sensualidade feminina (como pensamentos fúteis durante as batalhas). Contudo, é de louvar por ter escrito na perspectiva feminina (e logo de duas! Todos sabemos como é difícil entrar na cabeça das mulheres!). 

Outro pormenor de que gostei foi o tempo da acção. Diria que podia passar-se nos dias de hoje e por isso as influências da sociedade moderna ajudaram a criar uma história bastante divertida e muito terra-a-terra. 

 Infelizmente e, vou ter de dizer, não muito gostei das óbvias influências dos desenhos japoneses. Apesar de ter gostado de os ver em criança, penso que retirou alguma maturidade à obra e foi nessas alturas que perdi muita da minha concentração. Em relação às Guerreiras, dava por mim a fazer uma comparação quase imediata com as Navegantes da Lua, uma outra influência de desenhos japoneses. Posso dizer que tornou a trama engraçada, mas penso que o escritor podia ter tido um pouco mais de originalidade… Claro que isso adveio das influências que teve e depende dos gostos de cada escritor e de cada leitor. Não se pode recriminar isso. Eu, simplesmente, não me identifiquei muito com este aspecto. 

Gostei das descrições detalhadas e dos pormenores criativos (como o fruto principal de Orbias). Notou-se também, ao longo do livro, um crescimento maturacional na escrita do autor. Já o final foi interessante e misterioso e como ainda não tive oportunidade de comprar o segundo, já fui às livrarias tentar passar os olhos pelas primeiras páginas.

Para Fantástico, está… bem, fantástico. Quando comecei esta opinião, estava reticente sobre o que ia escrever. E, principalmente, como o ia escrever. Estava com medo de criticar muito negativamente os aspectos que não gostei, pois é isso que faço muitas vezes, sem pensar. Mas, no geral, e olhando agora em retrospectiva, acabei por gostar do livro. Fábio, desejo-te muita sorte no futuro e que continues a escrever mais e melhor. 

 “Os Livros Nossos” gostaram!