domingo, 12 de agosto de 2012

[Opinião] "Joana ou o Solstício de Inverno", de Carlos Alberto Poiares


Autor: Carlos Alberto Poiares
Editor: Fronteira do Caos Editores

ISBN:
 978-989-8070-70-8
páginas: 126




Sinopse:
   Joana, uma jovem licenciada em direito, entra em contacto com uma realidade para a qual nenhuma universidade foi capaz de a preparar: as subtilezas da vida na grande cidade, e de um mundo com regras e valores difusos.
   A sua vida desenvolve-se num ambiente complexo e contraditório, até ao desenlace final, momento em que o leitor irá ser surpreendido por um desfecho inesperado.
Um livro intenso e arrebatador, escrito com supremo deleite, capaz de nos inspirar e deixar a pensar acerca da verdadeira dimensão do ser humano, na sua diversidade, e múltiplas contradições.

Crítica/Opinião:

Por: Isabel Alexandra Almeida/Os Livros Nossos

   A obra literária “Joana ou o Solstício de Inverno”, da autoria de Carlos Alberto Poiares, Licenciado em Direito e Doutorado em Psicologia, com a Chancela da Fronteira do Caos Editores, consiste num romance que podemos classificar como contemporâneo.

   A personagem central – Joana – cujo percurso de vida acompanhamos desde jovem Licenciada em Direito, até à meia-idade, é rica e deveras complexa sob o ponto de vista psicológico e emocional. As restantes personagens vão surgindo na narrativa, em função das interacções que vão estabelecendo com a personagem central.

   Surge ao longo da obra uma vasta panóplia de personagens que podemos integrar em distintos espaços sociais, e que transportam consigo os seus pequenos ou grandes dramas.

    As sequências narrativas encontram-se intercaladas entre presente e passado, surgem analepses que nos transportam a episódios do passado de Joana que melhor nos permitem avaliar ou entender as suas atitudes e acões presentes, mas cabe referir que este encadeamento de presente e passado mostra-se realizado de forma coerente e bem pensada, sem nunca deixar que o leitor perca o fio condutor da narrativa, antes pelo contrário, ajuda o leitor a desvendar as tramas de se tecem as emoções de Joana. Proveniente de um meio rural, partiu aos 18 anos para Lisboa, para casa de uma tia mais velha – Gervásia – para estudar na capital (à semelhança de tantos outros jovens), sendo tendencialmente alvo da superprotecção da tia e, quando decide viver sozinha na grande cidade, a mãe – D. Laurinda, faz questão de com ela passar um tempo prolongado, controlando a sua existência a pretexto de a cuidar.

   Joana atravessa a efervescência estudantil do pré 25 de Abril, convivendo de perto com os sectores estudantis que, em plena Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, dão a cara pela luta contra o regime Salazarista (e neste ponto, o autor dá a conhecer um aspecto da história do país, se calhar nem sempre conhecido das gerações mais recentes).

   Acaba por arranjar trabalho como consultora jurídica num banco, muito por influência de uma “cunha” de seu pai, amigo próximo de um membro do Conselho de Administração de um Banco – O Dr. Gilberto. Aí, vai desenvolvendo as suas competências profissionais, mas não se revela uma apaixonada pelo Direito, apenas usufrui da posição confortável de uma estabilidade profissional que assim alcança. No banco trava conhecimento com Gustavo Lencastre, o seu mentor e mais tarde amigo mais presente.

   Vinda de uma família disfuncional, onde o pai nem sempre se mostrou presente, Joana demonstra sérias dificuldades em assumir compromissos afectivos, e vai somando relações uma atrás das outras, sem conseguir sequer encontrar-se a si mesma, sendo aliás cliente habitual de consultórios de “psis” expressão usada pela personagem, desde tenra idade, sendo também depressiva, histriónica e vivenciando de forma negativa épocas festivas associadas à vivência familiar, com especial evidência para o Natal.

   O pai de Joana – Jerónimo - ao ver a filha encaminhada e bem na vida (como é apanágio da mentalidade Portuguesa mais retrógrada), acaba por assumir um novo rumo de vida, fora do seio familiar, bastante inusitado e que vai surpreender os leitores e marcar indelevelmente a vida futura de Joana.

   Por sua vez, Gustavo Lencastre acaba por assumir no romance a qualidade de personagem quase central, e embora não lhe seja dado tanto destaque como o merecido por Joana, surge aos olhos do leitor com uma caracterização directa e indirecta também bastante complexa, juntamente com o pai, assimiu-se, desde sempre como um firme defensor dos ideais democráticos, tendo tido participação activa na luta contra o regime do Estado Novo. Acaba por se tornar num dos melhores amigos de Joana, por quem nutre um especial carinho e um sentimento que acaba por se revelar algo ambíguo e que traz ao leitor a oportunidade para reflectir sobre como o categorizar, atenta a sequência da narrativa até final. Vem de um casamento desfeito, mas trata-se de um homem íntegro, afável, bastante sociável e sempre rodeado de amigos, aos quais presta apoio perante as crises. Vive focado no trabalho, talvez possamos reconhecer-lhe uma certa faceta de workaholic, mas tempera-a com momentos de puro prazer gastronómico que vivencia aquando das suas deslocações aquele que é o seu pequeno pedaço de paraíso – a residência de férias na Foz do Arelho.

   Joana acaba por manifestar os seus desequilíbrios ao nível dos afectos, ao longo de toda a acção, muito por retorno da disfuncionalidade e instabilidade familiar que lhe coube experienciar, todavia, ao nível das amizades, é uma amiga presente, e que dá provas de lograr identificar-se com o sofrimento do próximo, empatizando, por exemplo, com Paula, uma das melhores amigas, que atravessa um momento deveras complicado ao nível familiar e busca apoio junto de Joana, encontrando essa ajuda no exacto momento em que dela necessita. A verdade é que, embora leve uma existência sofrida, e se bem que nem sempre escolha os caminhos mais correctos na sua vida, o leitor não conseguirá detestar Joana, acabando por criar empatia com a mesma e quase desejando poder fazer algo que a ajude, tal é o nível de envolvência que o autor conseguiu criar nas páginas do seu romance, e a que cremos, não será alheia (ainda que admitamos possa não ter surgido de forma consciente) a sua formação em Psicologia (aliada à formação em Direito que permite caracterizar com realismo tanto a vivência universitária na Faculdade de Direito de Lisboa, como na prática profissional da advocacia de há umas décadas a esta parte -  quando “não ocorrera a proliferação de juristas a que se assistiu nas décadas seguintes” p.p.25).

   A par da forte densidade psicológica das personagens, foi curioso ir fazendo um percurso por vários espaços sociais que acabam por se cruzar, desde a vida desafogada que, há cerca de três décadas, era permitida a quem cursava Direito, do prestigio social associado, mais noutras épocas do que na actualidade, a quem exercia Direito ou Medicina. Uma viagem ao mundo dos sem-abrigo que povoam as noites e dias desamparados no coração da Cidade de Lisboa, sem deixar de se considerar fenómenos sociais relacionados com o contexto histórico – o trauma de Guerra decorrente da participação no conflito colonial Português.

   Uma palavra de apreço também pela reflexão suscitada, já no último terço da narrativa, à questão do abuso sexual de menores, e às consequências que tal facto virá a ter na vida da própria criança abusada e no quotidiano da mesma e do progenitor inocente. Uma descrição dura, violenta mas necessária pela capacidade de alertar consciências, e uma verdadeira missão social a ser cumprida pela literatura – “Deve ser bastante violento para uma mãe saber um filho abusado…pelo pai! (…) a família pode ser o pior lugar do mundo” p.p. 117.

   O final do livro é bastante original e surpreendente, mas o que sobre o mesmo pudéssemos aqui mais acrescentar, corria o risco de se tornar num spoiler que, de todo, não pretendemos fazer.

   Quanto à linguagem, a mesma é bastante cuidada e elaborada, sem que, todavia, não se deixem de ter em conta os registos correntes de linguagem, consoante a classe social dos personagens, porém, parece-nos que, talvez possa parecer um pouco formalista algumas partes do discurso dos dois personagens juristas da narrativa – Joana e Gustavo.

   Em suma, um livro que, em apenas 126 páginas, de forma dinâmica (mas sem ser apressada), aborda temas como: as famílias disfuncionais, os dramas psicológicos que podem afectar os seres humanos muito por influência do que lhes coube viver na infância e adolescência, inclusive com reflexos na forma como vivenciam os afectos e a sexualidade (andará por aqui pelas entrelinhas uma certa visão Freudiana da formação da personalidade?); a história contemporânea do nosso país, nos seus aspectos menos positivos e mais traumáticos.

   É uma obra realista, embora ficcional, a escrita é clara, envolvente e oscila entre os momentos de pura ternura, passando para a livre experiencia dos instintos mais básicos do ser humano e para uma crueza de, por vezes, a vida acaba por se ver inadvertidamente pautada. Trata-se de um romance que pode ser lido por ambos os sexos, mas que não podia estar mais longe da qualificação de light, e torna-se bastante original e fácil de ler, mas deixa-nos a pensar ainda algum tempo depois de finda a sua leitura.

 
   Uma obra madura, para ser lida também com maturidade e não por leitores que sejam mais susceptíveis. Recomendamos, apenas com a reserva do público alvo!

  

sábado, 11 de agosto de 2012

[Opinião] "Senhores da Noite", de Carla Ribeiro


Autora: Carla Ribeiro
Título: Senhores da Noite
Editora: Fronteira do Caos

 
Sinopse:

Possuem o dom da imortalidade. Controlam as forças da magia com o poder da sua vontade e, com base na imunidade à morte, subjugaram a humanidade. Têm, contudo, uma fraqueza: vivem em guerra constante.
Moranius Sinister é o mais antigo dos imortais, único sobrevivente de um tempo em que a sua raça vivia sob as leis de um império. No presente, contudo, são já escassos os imortais e todos eles desejam o poder dos seus semelhantes. Para conquistar as suas ambições, Moranius vê-se obrigado a, juntamente com a sua amante, Deletress Aventra, conceber um plano que lhe permita eliminar do seu caminho os restantes imortais, apesar de todas as revelações ainda ocultas no tempo.
Nenhum trilho ficará por percorrer. Nenhum segredo será deixado por revelar. Nenhum ser vivo ficará seguro. Num mundo governado pela lenda do Senhor da Noite, a supremacia não admite um plural.

Opinião:

Acabei, há uma hora, de ler o livro Senhores da Noite de Carla Ribeiro, da parceira editorial Fronteira do Caos. E gostei. Confesso que não morro de amores por vampiros, mas mesmo assim, gostei!!

A capa, certamente, conquista o lugar das que mais jus faz ao conteúdo. Através dela consegue-se captar completamente a essência da história criada pela autora.

A juntar a autores como Fábio Ventura, Sandra Carvalho e Andreia Ferreira (estes já foram lidos por mim, pelo menos), Carla Ribeiro veio, assim, acentuar ainda mais a minha opinião sobre o meu género predilecto – Fantástico. Fiquei ainda mais convicta de que se escreve bem em Portugal e num género que apenas é apreciado por alguns.

É uma história de vampiros, mas não se assemelha em nada com as que conhecemos. São denominados de Imortais e nenhum deles está em absoluta paz, com a ameaça iminente de que o seu poder possa ser usurpado através da morte pelas mãos de um igual. Esta ameaça advém da Lenda do Senhor da Noite, que conseguiu esse estatuto exactamente através da usurpação do poder de muitos outros Imortais.

As personagens principais são Moranius, o mais antigo dos Imortais e Deletress, uma das mais poderosas da mesma espécie. De início, a união entre os dois era improvável, mas Carla brilha pela originalidade e reviravoltas constantes e, depressa o ódio se transformou em atracção. Contudo, será essa atracção suficiente para amolecer os “Senhores da Noite”, vis e impiedosos?

As personagens, no geral, são cruas, vis e egoístas. Não há palavras para descrever o quão maldosas são. Todavia, os seus actos são, até certo ponto, compreensíveis. Pode parecer estranho estar a dizer isto, mas passo a explicar. Apesar de toda a crueldade que os caracteriza, a autora optou por usar uma estratégia brilhante que se fosse utilizada noutra história poderia correr mal – flashbacks, durante os quais, o leitor fica a conhecer certos acontecimentos que ditaram o percurso das personagens até ao momento (por exemplo, a união improvável entre Moranius e Deletress; a guerra entre ela e a irmã, Arcania) e acaba mesmo por levar o leitor a simpatizar com elas.

O final foi surpreendente e as últimas palavras, enigmáticas. A autora primou pela imprevisibilidade e originalidade, o que foi uma agradável surpresa. Não estou, de modo algum, a inferiorizar as histórias que nos possam parecer mais previsíveis (pois também é bom saber que conseguimos acompanhar a história), mas foi inesperado e agradou-me enquanto leitora.

Tenho apenas a apontar uma crítica menos boa. Não pretendo tecer críticas destrutivas, até porque não sou formada para tal. Leio os livros e opino sobre eles. Tento ser o mais sincera possível, refiro aquilo que gostei e o que gostei menos, sempre com vista a ajudar, nunca a destruir. Este é o primeiro livro que li da autora e, certamente, a sua escrita já amadureceu, visto que o livro foi editado em 2010, mas viu-se neste algumas repetições que não me passaram despercebidas. De igual forma, notei algumas frases um pouco grandes, acompanhadas com algumas vírgulas, mas confesso que, nesse aspecto, sou suspeita. Gosto de frases médias, nem muito grandes, nem muito curtas. Porquê? Eu sou muito lenta a ler e esse aspecto ajuda-me a uma leitura rápida, que me leva incansavelmente às próximas frases e ajuda a chegar ao fim do livro quase sem dar por isso. Contudo, ressalvo, que se trata de estilo pessoal e que este difere de escritor para escritor e também depende do gosto do leitor. Estes dois aspectos dificultaram-me um pouco a concentração, ao início, mas com o desenrolar da história, foi-se notando cada vez menos e ficou muito mais empolgante. Apesar dos dois aspectos, o tamanho do livro (160 páginas) permitiu uma leitura rápida.

Uma excelente aposta da Fronteira do Caos e... de uma portuguesa! 
Parabéns, Carla Ribeiro e, obrigada pela história!

Ivonne

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

[Gostámos] "De Malibu, Com Amor", de Elizabeth Adler






Sinopse

Quando o detetive privado das estrelas de cinema, Mac Reilly, ouve o grito de uma mulher a sobrepor-se ao ruído das ondas a rebentar, a sua vida altera-se para sempre. Uma bela mulher perturbada envergando apenas um negligée preto de renda à porta de uma fabulosa casa de praia aponta-lhe uma arma. Mac escapa à bala, mas por pouco. Quem é aquela mulher? Dias depois já desapareceu e a Smith & Wesson com que quase o matou aparece no carro dele. Praticamente ao mesmo tempo, Allie Ray, estrela do grande ecrã e namoradinha da América, desaparece também. As duas mulheres estão relacionadas e Mac vê-se de repente envolvido numa teia de enganos. Vai precisar de ajuda para conseguir apurar toda a verdade. É aqui que entra em cena Sunny Alvarez. Sunny e Mac têm uma relação marcada por alguns arrufos. Ultimamente, muitos arrufos. Mas agora ele precisa dela mais do que nunca. Juntos iniciam uma perseguição que os levará da Califórnia do Sul até às praias do México, das ruas de Roma até às zonas rurais de França. Mantêm-se um passo atrás de um assassino esquivo e um passo à frente de uma atriz que só quer desaparecer...

Opinião 

Tomei conhecimento deste livro através da divulgação de outros blogues. Os que lêem as opiniões que formulo, sabem que dou primazia à capa e à sinopse e ambas agradaram-me soberanamente. Aliás, as capas portuguesas desta autora são simplesmente “de comer e chorar por mais”. 

Os capítulos pequenos permitem uma leitura rápida, mas confesso que demorei um pouco mais do que habitual. Pura e simplesmente, por preguiça. 

Adorei as descrições leves sobre os locais geográficos paradísiacos (Malibu, França, Itália…) e as personagens. Já tive o prazer de ir a Paris, mas também adorava ir até Itália e Los Angeles, neste caso, Malibu (ok, se pudesse, viajaria para todo o lado! Quem não o faria, não é?) e comprovar com os meus próprios olhos o glamour de que tanto falam. 

Gostei da relação de Mac Reilly e Sunny Alvarez, que apesar de romântica, tem as suas picardias bem realçadas. Sunny espera, de uma forma obsessivamente engraçada, que Mac se decida a avançar na relação, mas neste caso, o ditado popular “Quem espera sempre alcança” não se aplica. Pelo contrário, “Quem espera, desespera” assenta que nem uma luva. 

O casal vê-se envolvido numa trama, na qual também figuram, Allie Ray, a “namoradinha da América”, o seu marido, Ron Perrin e a mulher misteriosa que aponta a arma a Mac.  Adorei as personagens Ron e Allie e notei no blogue “As Histórias de Elphaba” que a administradora referiu que “após uma breve pesquisa por curiosidade, verifiquei fazerem parte de outros romances já publicados pela autora, o que faz todo o sentido.”. Isto ainda me deixou mais curiosa. A vocês, não?

Outro ponto que me fez gostar ainda mais da autora foi o facto de não rondar apenas os investigadores principais, Mac e Sunny. Ao longo do livro, foi alternando, entre os capítulos, os passos de todas as personagens, tendo o cuidado de não revelar em demasia.

O estilo da escrita da autora é descritiva q.b., dotada de diálogos cómicos, atrevidos, sérios, com suspense e alguns que nos fazem pensar na nossa existência. Estes últimos, passo a explicar melhor. A vida de uma pessoa famosa não é caracterizada unicamente pela fachada de “conto de fadas” que fazem questão de transparecer ao público. Tão depressa pode ser repleta da brilhantina do sucesso, como do vazio, pelo qual, a solidão de uma vida sem qualquer privacidade é responsável. E a determinada altura, por desespero, acredito que as figuras públicas ponderem sobre questões existenciais e prefiram o anonimato, como se verifica na história. 

Houve um aspecto que me intrigou e desiludiu um pouco, ao mesmo tempo. A sinopse refere um assassino e apenas no último terço do livro vemos isso a acontecer. Isso despertou-me a curiosidade, mas houve alturas em que fiquei aborrecida por não ver um maior desenvolvimento desse aspecto. Entendi por que assim foi e admito que o meu desagrado talvez se deva à minha impaciência e curiosidade desmedidas. Vou pegar nas palavras da Isabel, de uma conversa que tivemos, este romance tem ainda uma componente que o torna mais desejável que não se vê muito nos seus outros romances: a investigação e suspense.

Gostei do desfecho da história. Lembrei-me agora da máxima “tudo está bem quando acaba bem”. Ora, não vou revelar o final, mas embora não tenha sido pesaroso para as personagens principais, é óbvio que algumas não escaparam incólumes e intocáveis. E mais, não digo.

Ivonne

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

[Entrevista] Fábio Ventura, autor de "Orbias"


Os Livros Nossos apresentam mais uma Entrevista. Desta feita, a Fábio Ventura, autor de Orbias. Podem ler a opinião do primeiro volume, As Guerreiras da Deusa, aqui. 

Queremos deixar um agradecimento sincero ao autor, pela disponibilidade, simpatia e gentileza com que nos presenteou ao ceder-nos a honra de podermos entrevistá-lo. 

Segue-se então a entrevista, no formato que adoptámos recentemente. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

[Gostámos] "A Cidade dos Ossos", de Cassandra Clare


 
Sinopse Oficial

No Pandemonium, a discoteca da moda de Nova Iorque, Clary segue um rapaz muito giro de cabelo azul até que assiste à sua morte às mãos de três jovens cobertos de estranhas tatuagens. Desde essa noite, o seu destino une-se aos dos três Caçadores de Sombras e, sobretudo, ao de Jace, um rapaz com cara de anjo, mas com tendência a agir como um idiota…









Opinião

            A Cidade dos Ossos é o primeiro volume da saga Caçadores de Sombras, de Cassandra Clare. Em breve, será feita uma adaptação cinematográfica.  

Confesso que a sinopse não me despertou interesse, de imediato. É vaga e não refere de forma objetiva, nem sequer superficial, a que se refere o livro no seu conjunto. É claro que esse facto pode despertar curiosidade aos leitores, mas talvez não pelas melhores razões. Perguntas como “O que são Caçadores de Sombras?” e “Esta história não será destinada mais ao público adolescente?” pairaram na minha cabeça. Só quando li opiniões sobre estes livros é que fiquei realmente interessada.

Em relação à primeira questão, na história criada por Cassandra, Caçadores de Sombras (Filhos de Nephelim) protegem o mundo contra seres sobrenaturais, como vampiros e lobisomens. Já à segunda pergunta, tenho a dizer que sim, é destinado a um público jovem. Contudo, não creio que exclua o público adulto, até porque a escrita é bastante madura e o enredo adaptado às diferentes personagens que o compõem, isto é, a história apresenta situações dramáticas, sérias, maduras, de diversão, confronto e fuga. Para todas as idades, géneros e feitios. Um aspecto que se pode retirar de tudo isto é que o enredo é bastante envolvente e não tem “buracos” em que a ação estagna.

A ação passa-se em Nova Iorque, em tempo indeterminado, na qual seres humanos (mundis), seres sobrenaturais e Caçadores de Sombras vivem em paz através de um pacto que os dois últimos fizeram com o intuito de alcançar a paz. Todavia, vemos logo no primeiro capítulo que isso não é bem assim. E é aí que entra a sinopse que trata exatamente do início da ação. A personagem feminina principal, Clare, vai à discoteca Pandemonium com o seu melhor amigo, Simon. Lá dentro, vê um rapaz de cabelo azul, segue-o e assiste à sua morte às mãos de três Caçadores de Sombras, Jace e os irmãos, Alec e Isabelle. Supostamente, Clare não deveria vê-los, mas vê. E assim, Clare é arrastada para o mundo sobrenatural que coexiste com o seu. A juntar a este estranho acontecimento, é também obrigada a enveredar numa demanda pela sua mãe quando esta desaparece, juntamente com Jace, Alec e Isabelle.

Quanto às personagens secundárias, gostei de Luke, semelhante a um pai para Clare e do antagonista, Valentine. No geral, gostava de ter visto um maior desenvolvimento sobre as personagens secundárias, mas percebi que o importante não era tanto esse aspecto, mas sim a história por de trás. Também nos é apresentada uma personagem homossexual (não vou dizer qual é, hehe), mas ao contrário do que se lê em outros livros, não há muitas referências a isso que nos possam parecer negativas ou depreciativas.

          Os cenários de Nova Iorque ficaram bem construídos perante a nova realidade e os pormenores criativos adicionados pela autora não deixaram a desejar, pelo menos, a meu ver.

A escrita, como já disse, é madura, mas perceptível aos olhos de qualquer leitor e nota-se uma boa organização interna da sucessão dos acontecimentos (ou seja, tem principio, meio e fim e não nos perdemos pelo meio). A relação entre o leitor e as personagens não é tão próxima como em outros livros, mas permite a absorção dos sentimentos que pairam no ar. Neste tipo de história, o triângulo amoroso é inevitável (ou será um pentágono? Quem ler o livro perceberá a razão desta minha dúvida), mas ficou um tanto diferente do que se costuma ver. Não está muito focada na relação amorosa, mas mais na demanda de Clare pela sua mãe e pelo seu passado.

O final é repleto de suspense e fica uma dúvida angustiante no ar que entrelaça o destino de Clare e Jace.

É fantasia urbana, não diria que tenha sido criada de raiz, como é óbvio, mas ficou bem conseguida. Está recomendado pel’Os Livros Nossos. Principalmente, a todos os amantes do Fantástico.

Ivonne

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

[Gostámos] "Marcada", Saga "A Casa da Noite", de P.C. Cast e Kristin Cast





Sinopse

      Zoey Redbird tem 16 anos e vive num mundo igual ao nosso, com uma única excepção: os vampyros não só existem como são tolerados. Os humanos que os vampyros "marcam" como especiais entram na Casa da Noite, uma escola onde se vão transformar em vampyros ou, se o corpo o rejeitar, morrer.

      Para Zoey, apesar do medo inicial, ser marcada é uma verdadeira bênção. É que ela nunca encaixou no mundo normal e sempre sentiu que estava destinada a algo mais. Mas mesmo na nova escola a jovem sente-se diferente dos outros: é que a marca que a Deusa Nyx lhe fez é especial, mostrando que os seus poderes são muito fortes para alguém tão jovem.

      Na Escola da Noite, Zoey acaba por encontrar amizade e amor, mas também mentira e inveja. Afinal, nem tudo está bem no mundo dos vampyros e os problemas que pensava ter deixado para trás não se comparam aos desafios que tem pela frente.

Opinião

  A acção desenrola-se nos dias de hoje e as autoras reformularam a sociedade já existente. Introduziram um novo conceito de vampiros (vampyros) que são aceites na sociedade há muitas décadas. Prova disso são as inúmeras referências a celebridades desde Shakespeare a actores de Hollywood. Bram Stoker, autor de Drácula, também é referenciado, mas ironicamente não como vampyro.  

Inicia-se com a personagem principal, Zoey Redbird, a ser Marcada pelo caça. Passo a explicar: por volta dos 16 anos, alguns adolescentes são Marcados e levados para a Casa da Noite, a escola de etiqueta para vampyros. Lá, terão de se submeter à Mudança e se o seu corpo a aceitar, transformam-se. Se tal não acontecer, morrem para sempre.

Desta feita, Zoey torna-se numa iniciada da Casa da Noite. E uma que nada tem de normal. A sua marca e os dons com que a Deusa Nyx a presenteou fazem dela a iniciada mais poderosa de sempre. A sua mentora na nova escola é a Sumo-Sacerdotisa Neferet, com a qual cria uma forte ligação. Basicamente, este primeiro livro conta a integração de Zoey na nova escola.

 A sua família abomina vampyros, excepto a sua Avó com quem tem uma relação leve, fresca e maravilhosa. Já o seu “ex-quase-namorado” Heath também não o faz e deixa de beber e de fumar, motivos pelos quais tinham “acabado” o namoro. Isto divide muito a Zoey, pois sendo uma iniciada especial, revela um desejo ardente (que só os alunos do último ano sentem) pelo seu sangue. 

  Ao contrário do que acontecia na sua vida de comum mortal, na Casa da Noite, Zoey encontra verdadeiros amigos e um novo amor. E também um pequeno “ódio de estimação” chamado Afrodite. Quantos jovens não o têm? Isso faz com que muitos se identifiquem com a personagem principal.
     
 Pontos Positivos:

1. Para além do enredo, gostei da escrita que as autoras utilizaram. Conseguiram colocar-se bastante bem na pele dos jovens, utilizando uma linguagem descontraída (corrente), com muito humor e ironia à mistura. Apesar de utilizarem alguns palavrões e isso tirar um pouco a credibilidade à história. 

2. Quanto às personagens, criaram algumas diversificadas, o que só contribuiu para enaltecer o humor. Uma delas é Damien, um jovem homossexual assumido e rejeitado pelos pais. É divertido e usa palavras “caras” para confundir as amigas do grupo. Este aspecto livra a obra de preconceitos e ideias pré-concebidas sobre assuntos-tabu da actualidade, tornando-a numa obra bastante terra-a-terra. A juntar a este aspecto, também retrata locais e espaços públicos reais (como Starbucks, por exemplo). 

3. A ideia geral é inovadora e realidade nunca é deixada de parte, está sempre bem patente ao longo de todo o livro. As autoras incluíram a religião, sendo que, os vampyros juram adoração e devoção à Deusa Nyx. 

Pontos Negativos: 

1. Exagero no erotismo e nas alusões aos momentos/pensamentos eróticos. Tornou a narrativa engraçada, principalmente com linguagem corrente e, não as condeno, mas ficaram um pouco deslocadas e exageradas para a faixa etária a que se destina.

2. Exagero de dramas adolescentes e a ausência de crescimento maturacional da personagem principal. Sendo que a acção se passa em poucos meses, diria que é normal. Contudo, já li opiniões bastante negativas sobre isso, principalmente por ser uma saga muito extensa (12 livros!). Realço apenas que a minha opinião incide sobre este (e brevemente sobre o segundo e o terceiro) e que não posso corroborar essas críticas. Eu gostei do que li até agora e recomendo principalmente a jovens e para quem gosta de histórias sobre vampiros, no geral.


    Para concluir, diria que é um livro (ou saga) destinado principalmente aos jovens adolescentes (nunca abaixo de 13/14 anos devido aos últimos pormenores). Lê-se bem e em poucas horas e tal como muitos outros do género, vai ser adaptado ao cinema, em breve. 

Ivonne

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

[Opinião] "Soberba Tentação" , de Andreia Ferreira.



Autora: Andreia Ferreira
1ª Edição: Julho 2012
Editor: Alfarroba
Colecção: Romance
PVP: 15€
ISBN: 978-989-8455-41-3
Formato: 21 x 14 cm
Páginas: 300


Sinopse


Os demónios já deixaram marcas na vida da Ana e da Raquel e a Carla começa a sentir algumas dificuldades em encontrar-se.

Entre lacunas na memória, sentimentos e novas preocupações, surge uma existência virada do avesso com a linha da vida mais ténue do que nunca.

Com a ausência do Caael, assomam revelações que levantam um plano ancestral de uma disputa entre iguais. A Carla vê-se num tabuleiro de xadrez, como um rei isolado, com a rainha a jogar contra ela. Depois de descobrir que o sobrenatural não representa um medo irracional e que as criaturas caminham lado a lado com os humanos, a Carla tem de enfrentar as consequências do seu envolvimento com o Caael.


Crítica/Opinião:
 por:  Isabel Alexandra Almeida/Os Livros Nossos
   "Soberba tentação" é o segundo volume da Trilogia "Soberba", da jovem  autora Andreia Ferreira. Nesta obra acompanhamos a evolução, surpreendente diga-se, do percurso das personagens de Soberba Escuridão, com especial destaque para Carla (a principal Personagem feminina), o seu namorado Caael ( um misterioso e sensual anjo Caído), as melhores amigas de Carla - Ana (agora transformada em Vampira)e a sofredora e ingénua Raquel, assumindo um papel de destaque neste livro Ricardo ( um ser híbrido, Vampiro, humano e demónio), que fica incumbido de zelar pela vida de Carla durante um período de ausência de Caael.

   Todas as personagens evoluem, sendo os humanos envolvidos na luta entre o bem e o mal, e numa guerra inevitável entre seres sobrenaturais, para a qual acabam por ver-se arrastados. Carla vive momentos de paixão, desejo, angústia e culpa que a revelam ainda mais rica em termos psicológicos do que no primeiro livro da trilogia, sendo marcada pelo conflito permanente entre a sua existência antes de se ver envolvida no mundo sobrenatural (que julgara apenas existir nos livros do género fantástico de que era ávida leitora)e os perigos e novas emoções que agora experiencia com a sua ligação ao sobrenatural.

   Mais uma vez, o enredo mostra-se engenhoso, original (sem se colar a estereótipos de obras já existentes)e a narrativa surge perante os olhos do leitor num ritmo bastante rápido, criando um permanente suspense, e a vontade de acompanhar os ulteriores desenvolvimentos, criando-nos dúvidas sobre as reais intenções e sentimentos de algumas personagens, ao ponto de nos identificar-mos com Carla (surgindo uma ainda maior empatia com esta personagem, com a qual partilhamos as incertezas e desconfianças oscilantes com os seres sobrenaturais com que convive e que vê afectarem o seu núcleo de amigos mais próximo, começando já a recear pela segurança da sua família).

   A acção narrada surge pautada por várias reviravoltas, que conseguem surpreender o leitor, ou seja, é impossível prever o que se seguirá, e este tipo de narrativa é o que distingue os escritores comuns daqueles que se mostram já acima da mediania.
   Quanto ao estilo de linguagem utilizado, também se revela evidente uma evolução positiva da mesma, no sentido de um amadurecimento da escritora (enquanto tal) que acaba por ficar patente no modo como são construídas as frases (de modo mais elaborado). Os diálogos surgem ainda mais contextualizados com descrições que permitem complementar os estados de alma das personagens, construindo-se a desejada tensão permanente que se pretende evidenciar.

   Ainda a merecer destaque, o crescendo de sensualidade que se vai notando ao longo do livro, e a forma por vezes até poética como a autora a coloca, considerando-se por exemplo, alguns dos momentos de intimidade entre Carla e Caael, e o modo como são descritos - " (...) Perdi toda a consciência do tempo, do espaço, da física, da ordem como o mundo corria.(...)Totalmente na posse dele. Não havia como contestar o quanto eu me deixara entregar, o quanto ele me envolvia a alma e o corpo."

    Se é certo que há momentos de verdadeira prosa poética, também não são esquecidos os momentos de verdadeiro terror, tão do agrado de qualquer amante do género fantástico, aqui a autora arriscou, na crueza de algumas descrições, mas foi muitíssimo bem sucedida - " Os gritos dele ecoaram no cemitério, o vento levou-os para as aldeias."

   As expectativas não só não saem goradas, ao ler este livro, como são ultrapassadas, está de parabéns Andreia Ferreira por ter conseguido pegar na sua história inicial, desenvolve-la a bom ritmo (não há momentos parados no livro), manter constantes os níveis de interesse do leitor, e surpreendendo-o pela positiva.

   Pensamos que não seria descabida uma internacionalização desta obra! Parabéns Andreia Ferreira, e que venha o terceiro volume!



[Entrevista] Joel G. Gomes autor de "Um Cappuccino Vermelho"

Vamos iniciar as entrevistas de Agosto com o Escritor Joel G. Gomes, natural da margem sul. O seu romance de estreia já foi alvo de critica aqui no nosso blog. Agradecemos desde já a disponibilidade do autor em responder às nossas questões.
De seguida, encontra-se a entrevista conduzida por Liliana Novais.
Foto gentilmente cedida pelo autor.



1.      Iniciou a escrita deste livro em 2002, porque é que demorou dez anos a editá-lo?

Por várias razões. "Um Cappuccino Vermelho" foi escrito para um concurso literário que existia organizado pela Editorial Teorema e pela FNAC. Estávamos em 2002 e foi a primeira vez que me propus a escrever algo ambicioso como um romance. Não ganhei o concurso, mas acabei por ganhar alguma experiência e perceber que escrever um romance não era a mesma que escrever sketches de humor ou qualquer outra coisa. Não que escrever sketches seja fácil, porque não é.
Enfim, os anos foram passando e, se por um lado quem lia o livro dizia sempre que gostava, por outro eu não achava que aquilo fosse publicável. Dito de outra forma, se uma editora o quisesse publicar (não comigo a pagar, claro) eu depressa aceitaria; todavia, não iria tentar a minha sorte com elas.
Avançando um pouco no tempo, porque senão depois não tenho nada para dizer na segunda questão, tomei a decisão de deixar "Um Cappuccino Vermelho" na gaveta e trabalhar noutras obras. Desenvolvi vários projectos para televisão e cinema, escrevi alguns contos e crónicas, até que chegou um momento em que achei que estava na hora de trabalhar num novo romance e esse sim publicá-lo.
Comecei a escrever "A Imagem" em meados de 2009 e quando dei por mim estava a escrever uma continuação do primeiro livro. Ora, eu não podia publicar uma continuação sem publicar o início, não é? Quer dizer... pensando bem, até podia. Depois punha a circular o rumor de que a primeira obra era raríssima e vendia cada exemplar a 100 euros. (Suspiro) Lá se foi uma bela oportunidade de negócio.
No essencial foi isto: resolvi publicar este livro dez anos depois de o ter escrito porque não podia publicar o segundo sem publicar o primeiro. É claro que isto obrigou-me a revisitar "Um Cappuccino Vermelho", obrigou-me a actualizá-lo, a fazer acertos em datas e acontecimentos de modo a que os dois romances ficassem equiparados. E foi ao fazer essa reescrita que eu percebi que aquilo tinha muito que corrigir e fiquei contente por não o ter publicado mais cedo.


2.      Existem muitos críticos acerca das edições de autor, porque é que optou por esta via?

Eu tinha esta, chamemos-lhe, “convicção” que era não publicar este livro, só que as convicções são como doce de morango. Nós gostamos de doce de morango, até que há um dia em que descobrimos o doce de figo e percebemos que também não é mau. O exemplo não tem nada a ver, eu sei, mas serve para introduzir a história. O que aconteceu foi que há uns anos atrás, em 2009, fui ao Porto assistir ao Fantasporto e numa edição do jornal “O Primeiro de Janeiro” vinha lá um anúncio à Papiro Editora. Como aquilo ficava ali pertinho resolvi ir lá. Fui muito bem recebido, conversámos sobre o processo e quando voltei ao hotel onde estava enviei-lhe o ficheiro. Um dia ou dois depois já tinham lido e gostavam imenso. Eu, fiquei contente, como é óbvio, infelizmente não tinha capital para investir.
Entretanto, como eu acho que editar um livro é como comprar um electrodoméstico, fui procurar outras ofertas. Fiz uma selecção e contactei as editoras que poderiam estar interessadas em publicar o meu livro – a Presença, a Asa, a D. Quixote, Saída de Emergência, Chiado Editora, etc. – e aquilo que eu percebi foi: quando são as editoras a pagar a edição, existe um critério mínimo que é, a obra não ter erros, ou pelo menos não ter erros gritantes (eu sei que o meu tem erros, calma), e a história fazer sentido (ponto também discutível em muitos casos); quando é o autor a pagar, qualquer obra é candidato a Prémio Cervantes, BookPrize ou Nobel. Percebe-se que foram estas últimas a demonstrar interesse pelo meu livro.
Eu desdenho um bocado um bocado estas edições de vanity-publishing (cá em Portugal chama-se edição compartilhada ou co-participada porque o autor fica com a ideia que existe uma partilha equitativa entre despesa e lucro, o que não é bem verdade) precisamente por isto. Existem bons autores a publicar boas obras por este meio. O problema é que também existem maus e os maus são em maior quantidade. A falta de outro critério que não o financeiro – "desde que pague, publica-se"  –, faz com que eu, enquanto leitor, tenha dificuldades em destrinçar o bom do razoável e do péssimo. As outras editoras também publicam muita porcaria, mas existe um critério. Também comercial, é certo, porque o negócio delas é vender livros. No entanto, enquanto umas editoras investem em obras que poderão ter retorno, as outras levam os autores a investir nas suas próprias obras. Eu sou da opinião que devemos acreditar no potencial do nosso trabalho. Mas também devemos ser realistas.
E eu fiz as contas, falei com algumas pessoas, soube de certas histórias e pensei: pagar por pagar, publico por minha conta. Não é nada do outro mundo, mantenho controlo criativo, distributivo e financeiro sobre tudo e pronto. É um stress danado, mas prefiro assim.



3.      O seu primeiro capítulo aborda exaustivamente o tópico café, foi influenciado pelo facto de o ter escrito num café?

Penso que "exaustivamente" seja a palavra certa. Exagerei um bocado nessa parte, há que dizer. As pessoas costumam gostar. Ou dizem que gostam. Vai na volta, só estão a ser simpáticas. Já tenho pensado se não faria bem, daqui por uns tempos, em lançar uma nova edição, com essa e outras partes melhoradas.
Sobre a influência, foi um bocado. O primeiro capítulo apresenta um dos protagonistas, o Ricardo Neves, que além de escritor é também assassino profissional. Eu imaginava um assassino profissional como aqueles que vemos nos filmes, todo bem vestido, discreto. E no café que eu então frequentava, o tal onde os três ou quatro primeiros capítulos foram escritos, andavam por lá algumas figuras que serviram de modelo físico e comportamental, não apenas ao Ricardo mas a outros personagens.


4.      Como é que lhe surgiu a ideia para este livro?

A ideia inicial era escrever sobre um escritor que descobre que aquilo que ele está a escrever se está a tornar realidade. A ideia não era nova, já tinha sido usada, por exemplo, no filme Instinto Fatal, mas eu achava que podia fazer a coisa de forma diferente.
Também achava que fazia falta um tipo que fosse assassino. Na altura ainda não existia o Ricardo nem o João, apenas um fulano que seria uma coisa e outro fulano que seria outra. Entretanto, há um dia em que vou no Metro a pensar no personagem do assassino e cruzo-me com uma rapariga e... não sei explicar. Aconteceu uma associação qualquer de ideias dentro da minha cabeça e concluí que o assassino teria de ser também escritor. Ao concluir isso, concluí também que em vez de ter um escritor a escrever sobre outro escritor, poderia ter dois escritores a escrever um sobre o outro, de modo a que não fosse óbvio qual deles seria o real e qual deles seria o fictício.


5.      Com qual das duas personagens mais se identifica, o Ricardo ou o João?

A minha mãe diz que eu pareço-me mais com o Ricardo. Por causa da parte da tranquilidade; não ando por aí a matar pessoas. Só imagino. Por outro lado, o João é alguém que pensa demasiado nas coisas e, ainda assim, acaba por tomar decisões precipitadas. Um pouco como eu, às vezes.
No fundo, penso que haverá um pouco de mim em cada um dos personagens. Alguns traços serão óbvios, outros nem tanto. Por vezes, nem eu me apercebo do que coloco de meu neles, mas sei que coloco alguma coisa.


6.      O que é que a sua experiência como cronista trouxe para o seu livro?

Para o primeiro não trouxe muito. É verdade que comecei a escrever crónicas em blogues desde 2006, mas só a partir de 2010, quando comecei a publicá-las em vários jornais, é que comecei a levar a coisa mais a sério. Incluindo impôr a mim mesmo uma disciplina de trabalho que antes não tinha.
Escrever é como tudo na vida: quando mais praticamos, mais melhoramos. Por isso, naturalmente, que escrever três a cinco artigos por semana foi-me dando calo e ajudou-me a melhorar imenso.
Acima de tudo, o que a minha experiência como cronista trouxe para este livro foi divulgação. Consegui entrevistas, anúncios, artigos, etc. O que não seria impossível se não tivesse qualquer relação prévia com eles, embora fosse mais complicado.


7.      Fale-nos um pouco acerca do seu novo livro, “A Imagem”.

“A Imagem” conta a história de Lucas, um jovem com um passado obscuro, que é obrigado a pactuar com uma série de horrores para que os seus segredos não sejam revelados. É também alguém com uma relação muito próxima com um dos personagens de “Um Cappuccino Vermelho”. O Lucas está preso à sua vida, à sua rotina, até ao dia em que se depara com um imagem surgida da noite para o dia. Imagem essa que só ele vê e que o obriga a colocar a si próprio uma série de questões. Será na sua busca para responder a essas questões que o Lucas irá encontrar uma forma de lidar com o seu passado e, acima de tudo, com o seu presente.
A história do Lucas é a principal, mas está longe de ser a única. Há personagens julgados mortos que reaparecem, há passados alterados, pesadelos que se tornam realidade, etc. Existe um vasto rol de personagens, cada um com a sua história, com os seus objectivos, e as linhas vão se cruzando, vão se convergindo até ao grande final.

8.      É verdade que tem um passatempo associado a este? Em que consiste?

No final d' “Um Cappuccino Vermelho” incluí um excerto d' “A Imagem”. No final d' “A Imagem”, além do excerto do próximo trabalho, que se intitulará “A Voz”, resolvi incluir um conto escrito ou pelo Ricardo ou pelo João. Mas depois pensei: em vez de escrever eu esse conto, porque não convidar outros a escrevê-lo?
Basicamente, o passatempo consiste no seguinte: a pessoa escolhe qual dos personagens quer “encarnar” e escreve um conto entre cinco a dez mil palavras. O tema é livre, pode ter ou não a ver com a história de “Um Cappuccino Vermelho”, e decorre até 10 de Outubro. (Quero ver se consigo publicar isto ainda em Novembro.)
Aconselho a visitarem o meu blogue onde poderão encontrar mais informações sobre este passatempo.
http://umcappuccinovermelho.blogspot.pt/2012/05/passatempo-eu-escrevi-o-meu-destino.html


9.      Para a promoção do seu livro criou vários sites, de onde veio a ideia?

Tanto o João como o Ricardo são escritores e eu achei que seria interessante brincar um pouco com isso, divulgando as suas outras obras, bem como as de outros autores. Os títulos e os resumos das histórias são todos meus, as capas também foram criadas por mim; e os nomes dos autores da Fractalis Editora (http://fractalis-editora.blogspot.com/) são os nomes dos protagonistas dos livros das Edições Espiréleo (http://espiraleo.wordpress.com/) e vice-versa. Às tantas já me perguntava porquê, mas depois pensava: 'eh pá, comecei, agora tenho de acabar'.
Acrescente-se que alguns – eu gostaria de dizer todos ou quase todos, mas isso seria irrealista da minha parte – dos resumos presentes nestes sites correspondem a histórias que irão ser escritas.
Ao mesmo tempo que criava isto, meses antes da publicação do livro, criei também um perfil no Facebook para o Ricardo Neves e o João Martins, além do blog oficial em http://umcappuccinovermelho.blogspot.com/ e a página oficial do Facebook em https://www.facebook.com/Um.Cappuccino.Vermelho.
Foi uma trabalheira desgraçada, mas deu-me um gozo tremendo fazer tudo isto. Quando se publica sozinho, até que outros comecem a conhecer o nosso trabalho e comecem a divulgá-lo, temos de ser nós a fazê-lo.


10.  O que reserva o futuro?

No futuro mais próximo quero terminar de escrever “A Voz” e publicá-lo. “A Voz” será um encerrar de toda esta trilogia, embora a sua ligação com os romances anteriores não seja tão directa quanta isso. Digamos que haverá algo no final desse romance que estará ligado com um elemento fulcral de “A Imagem” e, por associação, com “Um Cappuccino Vermelho”.
Depois desse tenho dois ou três romances começados, dos quais há um em particular que eu quero mesmo acabar. E depois é tentar a minha sorte com as editoras.
Tenho outros projectos em desenvolvimento, não só na área da ficção narrativa, mas também para cinema, televisão, teatro. Além dos artigos para jornal, escrevo sempre dois artigos semanalmente para o meu blogue (http://anguloobtuso.wordpress.com/) e tenho dois livros de contos quase terminados que vou pôr cá fora depois de publicar “A Imagem”. Ainda falta um bocado para concluir “A Voz” e não quero estar muito tempo sem publicar nada. O público tem tendência para se esquecer quando se está muito tempo afastado.