sábado, 25 de fevereiro de 2017

Crítica Contemporânea | "Cartas por um Sonho", de Angeles Doñate | Suma de Letras


Crítica por Liliana Marques | Guest Blogger Os Livros Nossos


Cartas por Um Sonho, é dos livros mais simples, e ao mesmo tempo mais encantadores que já li até hoje!

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a magnifica capa. E, no final, tive a certeza que a beleza da capa reflecte a magia do interior. Uma história cativante e ternurenta!!! 

Sara, a única carteira da pequena aldeia de Prevenir, em Espanha, está na iminência de perder o seu emprego, devido ao reduzido n.º de cartas recebidas e enviadas na aldeia. Desta forma, Rosa, a sua melhor amiga e vizinha, inicia uma corrente de cartas anónimas, cujo principal objectivo é aumentar o volume de correspondência na aldeia e ajudar Sara a não perder o seu emprego, e este é o mote para o desenrolar de toda a história. 

É através desta corrente solidária que nos são apresentadas todas as personagens do livro. Pessoas comuns, com histórias de vida muito distintas, que de algum forma têm algo para contar. Muitas delas só continuam esta corrente, porque sentem que a Sara o merece, mas ainda assim, todas elas acabam por perceber que escrever é terapêutico e que se sentiram muito melhor depois de transpor para o papel as suas vivências, angustias, medos, segredos, sonhos e desejos. 

Este é um livro que nos faz sonhar, que nos faz ter vontade de, também nós, iniciarmos uma corrente de escrita, tão forte, que nos leve para um lugar melhor, com Prevenir. 

Quando terminei esta leitura dei por mim a pensar há quanto tempo não enviaria eu uma carta? Há meses? Diria mesmo que há anos... Vivemos na era dos e-mails, das sms, dos chats, do emojis, mas, como Saramago disse um dia "Jamais uma lágrima manchará um email"!! Pensemos nisto, sim?

Ficha Técnica:


Autora: Angeles Doñate

Editora: Suma de Letras | Grupo Penguin Random House

Edição: 2016

Nº de Páginas: 372

Género: Romance Contemporâneo



Guest Blogger Residente | Liliana Marques - Breve apresentação


[Liliana Marques - Guest Blogger Residente]:

No ano em que comemora o seu 5º aniversário [2017] o blogue Os Livros Nossos reforça a equipa de colaboradores, e pretende também apostar num maior ecletismo literário, alargando a crítica literária a novos géneros, no sentido de aumentar o seu público-alvo em termos de leitor.
Fique a conhecer a nossa mais recente colaboradora e blogger convidada residente, Liliana Marques. 

[Liliana Marques - Breve Apresentação]:

Liliana Marques nasceu em Mação, em 1989. Licenciou-se em Marketing pela Universidade da Beira Interior, e, desde então, a sua vida já deu tantas voltas, que passou a acreditar que o destino sabe sempre onde é o nosso lugar! 

Em 2014, numa dessas voltas, a vida trouxe-lhe os livros, e a paixão pela leitura. Durante cerca de três anos teve o privilégio de fazer parte do departamento de Comunicação e Marketing da Marcador Editora, colaborando, directamente, na promoção de alguns dos grandes bestsellers nacionais e internacionais. Em 2017, aceita o grande desafio de integrar a equipa de bloggers convidados do «Os Livros Nossos».  







terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Crítica Contemporânea | " O Carrinho de linha azul", de Anne Tyler | Editorial Presença


Crítica por Isabel de Almeida publicada originalmente em  Jornal Nova Gazeta:


O Carrinho de Linha Azul, de Anne Tyler, é um romance contemporâneo de cariz assumidamente literário, com uma prosa rica em detalhes descritivos em estilo intimista e levando os leitores a espreitar a narrativa familiar de uma família Norte Americana da Classe Média - os Whitshank.

Abby e Red Whitshank assumem o protagonismo da trama, enquanto Patriarcas do núcleo familiar composto por quatro filhos: Denny, Amanda, Jeannie e Stem, iniciando-se a narração nos anos 90.

Assumindo as rédeas da gestão das dinâmicas familiares e desejando ter uma família perfeita, Abby cria uma imagem mental idealizada da sua prole, tentando, por exemplo, desculpabilizar a ligação distante e ocasional do filho Denny à família. 

Denny  é, sem dúvida, a personagem mais marcante da história já que mantém com os pais e irmãos uma relação ostensivamente disfuncional, revelando-nos falhas na construção da sua identidade em termos psicológicos (nomeadamente, assumindo perante os pais a sua homossexualidade, mas tentando depois ignorar este aspecto, empenhando-se em relações afectivas de curta duração com diversas mulheres) e também deixando aos leitores pistas importantes quanto aos frágeis vínculos afectivos perante os familiares, com os quais nunca chega a identificar-se.

Vamos também acedendo a diversos episódios de anteriores gerações familiares, com recurso a analepses narrativas, técnica  esta que nos demonstra a enorme capacidade criativa de Anne Tyler e a sua mestria. Achámos bastante interessante a perspectiva do narrador não participante que, por vezes, se dirige directamente ao leitor, peculiaridade que mais prende e envolve o leitor no fio que vai sendo desenrolado deste "Carrinho de linha azul" [O título permitiu uma deliciosa tradução literal, nem sempre possível em Português].

O Carrinho de linha azul revela ser uma metáfora perfeita do curso de vida de toda uma família, ou de cada um dos seus membros individualmente considerados, sendo que o fio poderá apresentar mais ou menos nós, consoante os desafios e problemas que possam aparecer na vivência do dia a dia.

Emotivo, engenhoso, envolvente e muitíssimo bem escrito. Uma lufada de ar fresco neste início de ano.

Ficha Técnica:

Título: O Carrinho de linha azul


Autor: Anne Tyler


Edição: Janeiro de 2017


Editora: Editorial Presença


Páginas: 376

Classificação atribuída no GoodReads/Blogue Os Livros Nossos: 4/5


Género: Romance Contemporâneo




domingo, 13 de novembro de 2016

[Renda & Saltos Altos] "Viciado no Pecado", de Monica James [Planeta]

Ficha Técnica:

Título: Viciado no Pecado


Autora: Monica James


Editora: Planeta


1ª Edição: Novembro de 2016


Nº de Páginas: 344


Género: Romance contemporâneo/erótico


Classificação atribuída no GoodReads: 5/5 Estrelas


Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:


Viciado no Pecado, corresponde ao primeiro volume de uma duologia erótica da autora Monica James que promete agitar os fãs deste género literário bastante bem sucedido em Portugal.

O [anti] herói desta trama é o Psiquiatra Dixon Mathews, um self made man, filho de emigrantes Italianos, afirmou-se por mérito próprio ao nível profissional no competitivo mundo Nova Iorquino, mas por trás da figura de profissional bem sucedido escondem-se muitos segredos, alguns deles perigosos e um homem que precisa de se reconstruir em termos emocionais, dando azo a uma líbido excessiva como forma de exorcizar traumas emocionais e perdas que marcam o seu percurso de vida.

Dixon, que facilmente nos seduz, pese embora o seu dark side, irá ver-se envolvido num curioso triângulo amoroso, Juliet representa o pecado, a perversão elevada ao expoente máximo, o poder concedido pelo sexo, a ausência total de tabus ou limites, algo que tanto assusta quanto atrai Dixon.

Madison é o reverso da medalha, uma jovem doce, inocente, em busca de protecção tanto de perigos actuais quanto passados que vestem a pele de demónios que ainda deixam marcas psicológicas bastante pesadas.

Verdadeiramente deliciosos são os encontros semanais entre Dixon e os amigos de longa data, o certinho Finch (casado, feliz e papá) e o sarcástico, desbocado e libertino Hunter.

Também Madison conta com o apoio da sua melhor amiga, a determinada Mary, sempre com língua afiada e mordaz, mas pronta a ajudar sempre que necessário.

Por quebrar estereótipos tão habituais neste género de romance contemporâneo, e por apresentar personagens com elevada densidade, este é já, um dos nossos preferidos deste ano, nesta categoria literária.

Imbuído da dosagem certa de erotismo, humor, tensão dramática e com reviravoltas que prometem causar sensação, é uma obra que tendo também um toque de romantismo, não deixa de nos brindar com acertadas reflexões sobre o mundo das relações amorosas e, até familiares. Fascinante também é a análise psicológica sobre o tema do vício, nas suas possíveis modalidades, que a autora conseguiu inserir na narrativa com algum humor e ironia, mas também de forma realista e espontânea.

Muitíssimo expectantes relativamente à continuação da história,  só podemos terminar esta crítica com um conselho: deixe-se viciar neste pecado, e não se irá arrepender.




Foto do livro: Isabel Almeida/Blog Os Livros Nossos - Todos os Direitos reservados

Nota: O livro foi gentilmente cedido pela editora para recensão crítica

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

[Secção Criminal] "Morre, Alex Cross", de James Patterson [Topseller]

Ficha Técnica:

Título: Morre, Alex Cross


Autor: James Patterson


Edição: Outubro de 2016


Editora: Topseller


Nº de Páginas: 352


Género: Policial


Classificação atribuída no GoodReads: 4/5 estrelas



Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:

Morre, Alex Cross, de James Patterson, traz-nos mais um ritmado romance policial do prestigiado autor Norte-Americano da série do já conhecido detective da Polícia Metropolitana de Washington, com todos os ingredientes que encontramos num bom filme de acção.

Alex Cross vê-se envolvido na investigação do desaparecimento dos filhos do Presidente dos Estados Unidos - Zoe e Ethan Coyle enquanto a capital se vê sob a ameaça de uma misteriosa organização terrorista do Médio Oriente, enquanto as diversas forças de investigação unem esforços e ultrapassam rivalidades para tentar vencer os fortes desafios que se lhes colocam.

O protagonista, Alex Cross, mostra-se envolvido na sua paixão pela investigação policial, enquanto acompanha a elevada tensão das agências de investigação, sendo comum a todos os agentes policiais o medo de chegar demasiado tarde perto dos filhos do Presidente dos Estados Unidos.

Simultaneamente, assistimos à entrada em solo Americano do Casal Saudita Al Dossari, operacionais de uma perigosa organização extremista do Médio Oriente cujo objetivo é tirar vidas e lançar sobre Washington um manto de terror e medo extensível a toda a população local, ainda que, para atingir tais metas, tenham de perder as próprias vidas.

Somos novamente transportados para os corredores do poder, ao mais alto nível político, confrontados com a ameaça terrorista que paira sobre os Estados Unidos e tudo o que este pais representa no panorama político e económico global.

Heróis e Vilões desfilam perante os olhos dos leitores com personalidades bem vincadas, revelando inteligência, determinação e empenho nas respectivas causas.

Depois, como que para atenuar a elevada tensão da trama narrativa, voltamos a encontrar o núcleo familiar de Alex Cross, sendo impossível evitar um sorriso carinhoso com as tiradas e ensinamentos sábios da avó Regina (Nana). É fácil empatizar com a união do clã Cross.

Acção, perigo, uma verdadeira corrida contra o tempo, a conciliação possível entre as exigências da vida profissional e pessoal, no ritmo rápido e envolvente a que o autor já, há muito, vem habituando os seus leitores. Entretenimento ao mais alto nível, ideal para quem já é fã, ou para leitores que queiram descobrir Patterson no seu registo muito pessoal e costumeiro, que não desaponta.





quarta-feira, 2 de novembro de 2016

[Renda & Saltos Altos] "Puro Prazer", de Jess Michaels [Quinta Essência]


Ficha Técnica do Livro:

Título: Puro Prazer


Autora: Jess Michaels


Edição: Outubro de 2016


Editora: Quinta Essência


Nº de Páginas: 248


Género: Romance histórico sensual/erótico


Classificação atribuída no GoodReads: 4/5 estrelas


Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos:


Puro Prazer, de Jess Michaels, corresponde ao segundo título da série Mistress Matchmaker. A acção decorre em Londres no Século XIX, no período da regência. 

A protagonista é Mariah Desmond, uma jovem cortesã que, tendo dedicado três anos da sua vida ao seu protector, vê-se desamparada e na miséria, após a morte deste.

Surge novamente como adjuvante [como no primeiro título da série, já editado pela Quinta Essência] a Cortesã Vivien Manning, como mentora da sua melhor amiga, incentivando-a a encontrar rapidamente um novo protector que lhe permita garantir o seu sustento.

O herói começa por ser um anti-herói, é o libertino John Rycroft, neto de um duque, apesar de não possuir título nobiliárquico, é um homem rico que conseguiu ser bem sucedido enquanto empresário na área dos transportes. Conhecido por ser um verdadeiro coleccionador de mulheres, com as quais apenas mantém relacionamentos no campo puramente físico, assumindo um bloqueio emocional que o impede de amar e assumir o papel de protector de qualquer mulher.

Mariah irá fazer recair sobre si as atenções de John Rycroft, ironicamente, um velho conhecido seu, que havia sido o melhor amigo do seu falecido protector. Entre ambos começa a ser assumido um evidente e inegável desejo físico, que poderá comprometer seriamente o futuro de Mariah, a quem só resta a solução de encontrar um novo protector, papel este que John sente ser incapaz de assumir.

Pleno de intensas descrições de teor sexual no já bem conhecido estilo de Jess Michaels, mostrando uma excelente química entre os protagonistas e uma boa contextualização do desenvolvimento da relação entre Mariah e John, a autora consegue conferir às personagens profundidade psicológica e ainda condimentar a narrativa com segredos perigosos, levando-nos também a reflectir acerca da condição feminina na Inglaterra do Século XIX, onde as cortesãs (mulheres que viviam como amantes fixas de nobres ou burgueses, que eram designados por protectores) eram julgadas socialmente como seres inferiores, à margem da sociedade e verdadeiras mulheres-objecto, sendo sujeitas a duras humilhações quando caiam em desgraça.

Mariah, embora seja uma pessoa experiente ao nível amoroso e sexual, acaba por nos revelar uma ambiguidade interessante, é extremamente emotiva e até algo ingénua em termos afectivos. É impulsiva, apaixonada e determinada.

Por sua vez, no passado de John, o qual teremos oportunidade de desvendar, encontramos a resposta para a sua rigidez e bloqueio emocionais.

Intenso, ousado, com a dose certa de sensualidade, paixão, romance, intriga, análise social, perigo e acção, temos em mãos um romance que promete aquecer o início da época mais fria do ano. Instale-se no seu cantinho de leitura e prepare-se para vibrar.


Leia AQUI a crítica do blog Os Livros Nossos ao primeiro título desta série "Ensina-me a amar"




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

[Guest Blogger - Conto de Halloween] #3 - Encontros na Madrugada [Anita dos Santos]


Um conto de Halloween pela escritora Anita dos Santos, para o Blog Os Livros Nossos.






Encontros na Madrugada

Era inverno.
Os dias eram curtos e cinzentos pontuados pela chuva, ora forte acompanhada pela trovoada, ora aquela chuva que parece ofuscar os olhos de tão fina, envolvendo tudo num silêncio ensurdecedor.
O amanhecer era tardio e, a claridade do dia terminava abruptamente cedo.
Para mim, amanhecia muito mais cedo, visto ter de apanhar várias – três nem menos – camionetes de carreira para chegar ao trabalho, durante um percurso de três longas horas.
Nunca gostei especialmente do frio e da chuva. E de ter de andar a calcorrear as ruas pela madrugada, debaixo de chuva, ainda menos.
Noite cerrada às cinco e quarenta da manhã.
Na rua não se vê viva alma.
O caminho desde minha casa para a estação da camionagem, com o percurso mais curto, passa pela azinhaga por trás do cemitério, trajeto que evito sempre que posso.
Chove. Aquela chuva que parece uma nuvem de nevoeiro, bem cerrado, mas que não dá para abrir chapéu. Os candeeiros só começam a surgir lá mais a baixo, por ali não há nada, só a pouca luz da lua embaciada e de uma ou outra estrela que teimosamente se mantem no céu.
Na rua só se ouve o ruido dos meus passos a pisar as pedras da azinhaga e a esmagar a terra do caminho. Por fim chego ao asfalto e, solto um suspiro.
Cheguei aos candeeiros. Falta ainda passar o portão do cemitério…
Aperto o passo de cabeça baixa para evitar a chuva.
Quando passo o portão do cemitério e chego à rampa da descida seguinte, penso “por fim!”. E estaquei de repente no meio da estrada.
Encharcada, magra e pequena, olha-me de frente com olhos arregalados como pratos por entre a chuva desde o meio da estrada!
Ficámos por uns momentos como que suspensas no tempo, os olhos de uma nos olhos da outra.
Não sabia se devia respirar ou não. O coração batia-me a mil!
De repente, em três saltos bem medidos, pulou para a moita mais próxima da berma, as longas orelhas a abanar e o pelo espetado por todo o lado numa figura deplorável!
Permaneci, no meio da estrada, ainda por instantes, e depois soltei uma gargalhada, com a mão na barriga ainda encolhida.
Tinha tido o meu primeiro encontro imediato de terceiro grau com uma lebre, que pelos vistos ficou tão assustada como eu!


[Sobre a autora]:


Anita dos Santos é natural de Alcântara, Lisboa, residindo há mais de uma década na Ericeira com o seu marido e filhos.

Depois de trabalhar trinta e nove anos na área financeira, sem horários nem tempo pessoal, dá por si com todo o tempo disponível.

A sua paixão sempre foram os livros. Mas não só. O sonho de escrever esteve sempre presente.

Agora, com o tempo, nasceu o sonho com o seu primeiro livro “Crónicas de André e Vicente – O Bosque dos Murmúrios”.

Este ano, em Outubro, Anita lançou o segundo livro "Crónicas de André - A Cidade das Brumas"

Visitem a página da autora no Facebook AQUI

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

[Histórico] "Os Espiões do Papa", de Mark Riebling [Editorial Presença]


Ficha Técnica:

Título: Os Espiões do Papa

Autor: Mark Riebling

Colecção: Biblioteca do Século

Edição: Outubro de 2016

Editora: Editorial Presença

Nº de Páginas: 424

Nota: O exemplar da obra foi gentilmente cedido pelo editor para artigo de crítica literária.

Saiba mais detalhes sobre a obra AQUI





Crítica por Isabel Alexandra Almeida para o Blog Os Livros Nossos com jornal Nova Gazeta:


O ensaio histórico Os Espiões do Papa, integra a colecção Biblioteca do Século, com chancela Editorial Presença, e reúne todas as características necessárias para se tornar numa obra de referência, sustentada sobre um excelente edifício de  pesquisa de relevantes arquivos e documentos que retratam o ambiente da espionagem e contra-espionagem envolvendo o Vaticano e o Papa Pio XII no decurso da II Guerra Mundial.

Mark Riebling destaca-se pela proeza de ter produzido um ensaio histórico sério, credível, mas que proporciona uma leitura acessível, entusiasmante e que agarra o leitor de forma sólida, ao longo de toda a narrativa, revelando-nos personagens fortes, corajosas e que conquistaram, por direito próprio, o seu lugar na história contemporânea, sendo de destacar Pio XII, que chegou mesmo a ser injustiçado ao ser considerado apoiante do regime Nazi e de Hitler, o que não poderia estar mais longe da verdade, conforme decorre da leitura desta obra.

Assume papel de relevo nesta narrativa Josef Müller, advogado Alemão, um homem carismático, íntegro, destemido e inteligente, que nunca hesitou em arriscar a própria vida em nome dos ideais de liberdade e democracia nos quais acreditava, assumindo o controlo e organização de diversas iniciativas de espionagem, fazendo a ligação entre o Vaticano e as forças religiosas civis e militares que, sob o signo do segredo, procuravam pôr fim à barbárie causada pelo Nazismo. Um protagonista verdadeiramente fascinante, com o qual empatizamos facilmente.

É perceptível ao leitor a posição bastante delicada em que Pio XII se viu colocado, uma vez que agir em nome do Vaticano - um Estado Autónomo - poderia agudizar ainda mais a já visível tensão de uma Europa em Guerra e colocar em risco princípios de Direito Internacional e actuar enquanto figura de proa da Igreja Católica poderia colocar em risco a segurança do Vaticano, perante a ameaça Nazi. Muitas vezes, Pio XII calou perante o mundo a sua dor e a sua revolta perante a perseguição e destruição de milhares de Judeus, é, portanto, um homem humano e solidário  aquele que aqui encontramos, a par do político e diplomata hábil, astucioso e algo frio que tantas vezes a história procurou apresentar.

A leitura desta obra surge como uma verdadeira pedrada no charco em termos daquilo que sempre tivemos por certo acerca deste período negro da história contemporânea da Europa e do mundo. Por vezes, os factos históricos, tal como nos são transmitidos inicialmente, dão azo a generalizações erróneas. O presente ensaio mostra-nos toda a rede de resistência interna Alemã ao regime Nazi, o apoio discreto mas eficaz do Vaticano a estas acções.

Interessante também são as reflexões no âmbito da filosofia política e religiosa que permitiram a estes homens justificar perante o mundo e perante as próprias consciências a eventual necessidade de cometimento de tiranicídio na pessoa de Hitler.

Com a estrutura própria de uma obra de ficção, onde nem sequer falta uma elevada dose de permanente suspense, perigo e intriga, heróis e vilões, justiça e injustiça, tudo em crescendo até ao desenlace final, num ritmo e envolvência verdadeiramente arrebatadores.

Brilhante, assente numa sólida base de pesquisa, e bastante revelador. Indispensável para quem goste de história.